E o Óscar do contexto vai para

Há na chapada que o ator Will Smith pespegou no comediante Chris Rock à frente de milhões de pessoas uma miríade de camadas. Como nas reações - e na ausência delas. O que é realmente a violência, há quem pergunte. Para se concluir, caso já não o soubéssemos: depende de quem a recebe e de quem a desfere. Sempre. E do "contexto" - claro.

"O amor faz-te fazer coisas malucas". Foi a justificação que o ator/comediante/rapper Will Smith deu para a chapada que meio da cerimónia dos Óscares pespegou no comediante/ator Chris Rock depois de este fazer, do palco, uma piada sobre o facto de a mulher de Smith estar de cabelo rapado.

E coisas malucas, de facto, Smith fez. Não só se levantou do seu honroso lugar na fila da frente para bater em Rock como, depois de voltar a sentar-se, gritou duas vezes: "Tira o nome da minha mulher da merda [a palavra usada foi "fucking"] da tua boca" - sublinhado em "minha".

Isto tudo sem que alguém tivesse esboçado um gesto para o parar ou se ouvisse uma palavra de censura. É certo que a emissão foi cortada logo de seguida para intervalo, mas nos vídeos desse ínterim não se vê ninguém da organização confrontar Smith ou pedir-lhe para se retirar - só duas pessoas, incluindo o ator Denzel Washington, a falar com ele. No retomar da emissão, Smith aparece de novo sentado - e assim continuou até subir ao palco para receber o Óscar de melhor ator e discursar longamente, entre lágrimas, sobre o que o amor faz as pessoas fazer, como considera ser sua obrigação proteger a família, citando, pelo meio, o que Denzel lhe teria dito: "É quando chegas mais alto que o diabo te tenta".

Realmente apropriada esta alusão ao episódio bíblico no qual Jesus ouve o demónio prometer-lhe o mundo se ele se passar para o seu lado e responde: "Não podes dar-me o que já é meu". É que se não há forma de saber se Smith faria o que fez - subir a um palco para agredir - se não tivesse o peso que tem na indústria cinematográfica e na cultura americana, ou seja, o rei (ou o mundo) na barriga, decerto não voltaria arrogantemente ao seu lugar, nem lhe seria permitido ali permanecer e ainda ser ovacionado de pé a seguir ao seu lamentável discurso de vitimização, se esse poder não existisse. Se não fosse quem é.

Resumindo: Smith achou que podia, e pôde. Pôde agredir uma pessoa à frente de milhões, recusar pedir-lhe desculpa à frente de milhões, sacar uma estatueta à frente de milhões e ouvir a sala toda bater-lhe palmas como se a um herói por "defender a mulher" - à frente de milhões. Aliás, se houvesse alguma dúvida sobre o seu poder, e do que ele permite, deixou de haver: aquilo que qualquer Código Penal civilizado tipifica como crime passou ali como um gesto de amor, de justiça até.

E, porque a agressão de Smith foi tratada pela organização do evento e pelos presentes como compreensível, senão mesmo adequada - o que não faltou foram estrelas a dizer, aos microfones "eu sou contra a violência, mas" - está a ser assim incensada por muitos.

Até por pessoas que, como a também atriz e comediante negra Tiffany Haddish, são associadas ao feminismo. "Quando vejo um homem negro defender a sua mulher, isso significa tanto para mim. (...) É o que o teu marido é suposto fazer, não? Proteger-te", escreveu Haddish, numa espantosa ode ao machismo e ao patriarcado, emulada por milhares de tuites e posts de redes sociais que desde ontem reproduzem a mesma ideia - de que não só os homens devem proteger as mulheres, se necessário pela força, como que as mulheres precisam dessa proteção dos homens.

Passando a especial ironia de a reação de Smith se relacionar com uma piada que menciona GI Jane, um filme exatamente sobre as mulheres não precisarem da proteção dos homens, há outro aspeto fascinante neste episódio: o da quantidade de pessoas que assegura que "aquela estalada foi pouco para o que Chris Rock fez" porque "a violência psicológica e emocional é tão grave ou mais grave que a violência física."

Eis uma conclusão que se saúda: de facto a violência psicológica e emocional - que inclui insultos, humilhações, calúnias - também é criminosa e pode até ter consequências mais graves que a física. A questão aqui será mesmo o que é violência psicológica e emocional - e o que é suposto, dentro da lei, fazer quando esta ocorre.

Decerto não é, como bem argumentou o comediante Bruno Nogueira esta segunda-feira na SIC, "achar que as palavras se combatem com kickboxing" - num mundo civilizado, as questões, se estiverem crimes em causa (e não houve qualquer crime no que Rock disse), resolvem-se nos tribunais. A não ser, claro, que haja direito a legítima defesa, ou seja, a repelir uma agressão pela força - mas esse direito não se aplica a ataques verbais.

Que toda a situação descrita se tenha passado no ápice da comunidade cinematográfica americana, conhecida pelo seu espírito liberal, "progressista" e pacifista - a qual tão indignadamente reagiu por exemplo à repugnante glorificação da violência e ao "both sidismo" de Donald Trump - é mais uma espantosa ironia.

Como a de ver Bruno Nogueira, que trabalha com João Quadros - alguém conhecido por, entre insultos e calúnias do mais repugnante, passar a vida a oferecer pancada a quem o critique - a explicar que a violência física é inaceitável como resposta a palavras e uma ameaça à liberdade.

Recordar aliás que quando em 2019 o rapper Valete ameaçou várias pessoas por estas terem criticado um clip/canção seu (recentemente foi a tribunal pedir desculpa por uma dessas ameaças), a esmagadora maioria dos comediantes portugueses se pronunciou em sua defesa - defesa, note-se, da ameaça e do mandar calar, não de quem foi ameaçado e mandado calar por se atrever a dar uma opinião. O apego à liberdade dos comediantes portugueses - e como se constata, não apenas dos portugueses - tem realmente dias. Talvez por não ser na verdade apego à liberdade como valor universal, mas apenas à sua liberdade individual, ou da "classe".

Em suma, parece que em geral as ações são más ou boas, aceitáveis ou condenáveis, justificáveis ou não, consoante o que sentimos por quem as pratica, se achamos que está ou não do nosso lado ou contra os nossos inimigos - se nos dão jeito ou não. Não tanto, sequer, em função daquilo a que se dá o nome de "contexto", mas do nosso contexto. Raramente se trata de julgar as ações por si, de as valorar do ponto de vista ético. No palco dos Óscares como na guerra - na vida.

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