E agora, meu caro António?

António Costa conseguiu lançar um governo com um discurso em tudo igual ao que tinha sido a sua campanha eleitoral. Durante a campanha sempre disse que o seu orçamento seria exatamente igual ao que tinha sido chumbado no Parlamento e que tinha sido a causa de novas eleições. Nem uma vírgula foi mudada, pelo que podemos concluir do seu discurso.

Já muitos se dedicaram a criticá-lo por não ter qualquer referência à situação de guerra nem à circunstância preocupante de estarmos a ser confrontados com uma taxa de inflação de que já nem nos lembrávamos. Mas é muito mais grave não ter qualquer referência a uma única reforma da estrutura social, económica, judicial ou administrativa do nosso país.

Não lhe importa que haja uma justiça disfuncional que deixa os portugueses completamente sujeitos à sorte de que possa haver alguma alma caridosa que ajuda quem foi prejudicado, uma vez que o sistema judicial não o fará. Ou que não haja crescimento económico por haver excesso de risco por inexistência de uma justiça.

Não lhe importa que continuemos a lançar para fora da nossa sociedade todos aqueles que por não terem rendimento suficiente são ajudados financeiramente, mas a quem ninguém envolve nas decisões da sua vida ou na responsabilização sobre a melhoria da sociedade em que vivem, destruindo completamente a sua capacidade de se desenvolverem como pessoas e promovendo uma situação de parasitismo.

Nem sequer lhe importa que estejamos a decrescer economicamente a uma velocidade extraordinária, apenas porque teimosamente não quer ver que são os impostos competitivos que criam desenvolvimento e não os estados que engordam.

Tudo isto apenas e sempre por uma preocupação maior sobre a continuidade do seu partido na detenção do poder e não se preocupando sobre aquilo que melhor poderá ajudar Portugal, como se nota por quase todas as características da equipa que nomeou para iniciar este novo período de governança deste país.

Mas há mais. Há um tema que é incontornável e que pouco ou nenhum caminho tem feito nestes anos de governo e que também pela mensagem recebida, pouco ou nada irá avançar.

O recurso mais rico e de maior futuro de Portugal é o Mar. O recurso superabundante que tem tudo por explorar e que nos pode colocar na liderança do mundo das próximas décadas, um recurso que temos o desplante de estar a pedir para nos ser atribuído ainda em maior escala, que nos poderá dar um tamanho territorial superior ao da Índia, mas a que não entregamos nem uma página do nosso tempo.

Ter sorte é uma condição boa, já o requeria Napoleão aos seus generais, e sorte tem o Senhor primeiro-ministro.

Sem líder da oposição durante todo o seu tempo de mandato, com uma crise pandémica que lhe reforçou a confiança de um povo, que está acomodado e tem medo, e que, por isso, valoriza o chefe nos momentos de crise, no final do seu tempo de governo e na campanha eleitoral, uma bazuca sem par, para esconder as aflições financeiras em que vamos caminhando. Não há dúvida que a sorte não lhe faltou.

Nem lhe faltou a coragem para sempre enfrentar as contrariedades que lhe foram surgindo nas pequenas crises internas, nem a persistência em manter ao comando dos vários ministérios aqueles que se foram afirmando recorrentemente como incompetentes. Mas está a faltar-lhe a coragem e a persistência para cumprir com aquilo que Portugal mais precisa de si. Que seja arguto e que deixe de parte a ideologia nas decisões que afetarão a vida de todos nós.

Que faça a diferença da inteligência e da habilidade que quase todos lhe reconhecem para levar para a frente este país. Não se importe com quem o vai substituir nem se importe em garantir o seu futuro. Se conseguir garantir o nosso eu lhe garanto que o seu não poderá ser melhor.


bruno.bobone.dn@gmail.com

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