Desta vez perdeu a Alemanha

O secretário Antony Blinken esteve em Bruxelas na reunião de ministros de Negócios Estrangeiros da NATO, após um périplo pelo Pacífico. Joe Biden juntou-se ao Conselho Europeu, após reunião de alto nível com Índia, Austrália e Japão. Não é a ordem das viagens que é particularmente relevante, mas a confirmação pragmática de que esta geografia alargada de alianças é prioritária na reconstrução pós-Trump. Ou, para também não fugir a todos os cenários, num hipotético intervalo antitrumpista. Estes equilíbrios feitos por Washington não são, em rigor, uma novidade, mas os desafios do Indo-Pacífico e a vontade autonómica europeia abrem algumas oportunidades.
E Blinken explorou-as em Bruxelas.

Passou ao lado das análises, mas o secretário de Estado americano, além da reunião geral, encontrou-se com os seus homólogos noutros formatos, uns mais bilaterais como é tradicional, outros assumindo as minicoligações de vontade que a geografia de interesses tem promovido na Europa (Bálticos, Visegrado, E3). A sinalização da cooperação conjunta é importante na diplomacia reconstrutiva, mas não se deve desvalorizar estes minilateralismos como mecanismo de auscultação mais produtiva, nomeadamente na indicação dos dois grandes objetivos estratégicos que resultam destes últimos dias: diminuir o poder da Alemanha nas grandes decisões europeias e influenciar a relação da Europa com a China mais de acordo com a lógica de Washington. Os dois objetivos estão, aliás, ligados.

Blinken foi claro sobre a grande pedra no sapato euro-americano. Chama-se Nord Stream 2 e é uma linha de continuidade na argumentação de Obama, Trump e Biden: o gasoduto que liga a Alemanha à Rússia é contrário ao interesse europeu, à sua segurança e, sobretudo, às ambições de Washington, na sua passada de exportação energética continental, de Sines ao Báltico, de Gdansk ao Adriático. A inflexibilidade de Berlim não só beneficia Moscovo, contornando a perceção de insegurança de parceiros europeus, como a Polónia, como prejudica o relançamento da relação com Washington. Para pressionar o isolamento alemão, os EUA endureceram a linguagem sobre Pequim no plano dos direitos humanos em Xinjiang e violação de autonomia jurídico-política em Hong Kong, passo indispensável para que exista articulação entre a Casa Branca e os republicanos no Congresso que, ao aprovar sanções cirúrgicas a dirigentes chineses, levou a UE e o Reino Unido a adotarem a mesma postura. Os europeus ficaram sem escolha: com múltiplos sinais de reaproximação dos EUA - possivelmente também na exportação de vacinas - e tendo sido tão áspero o encontro de Anchorage entre Blinken e o homólogo chinês, seria difícil à Europa não acompanhar esta dinâmica. A recusa colocá-la-ia numa zona intermédia, imediatamente entendida em Washington como uma escolha estratégica assumida, mas insanável. A ponderação dos custos passou por aqui. No entanto, teve igualmente o efeito de provocar uma reação de Pequim na mesma moeda, com sanções a eurodeputados, adotando uma linguagem agressiva que dificilmente abrirá a porta à aprovação no Parlamento Europeu do acordo de investimento entre a UE e a China, altamente forçado pela Alemanha, assinado nos últimos dias da sua presidência do Conselho da UE, no final do ano passado. Por outras palavras, Blinken provocou o fim, ou pelo menos o congelamento sine die, deste acordo, isolando Berlim.

Os EUA estão de regresso, sim, mas ao papel de equilibrador externo determinante no palco europeu: a saída do Reino Unido não deve deixar uma grande potência continental com peso indisputável e os miniequilíbrios regionais fazem parte da mecânica transatlântica. Nada disto é verdadeiramente novo, mas dilui o tom monocromático com que se olha para a nova administração e abre algumas oportunidades importantes. Esteja Portugal atento.

Investigador

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