Desfile de ouro dos faraós e o culto ao poder e às hierarquias sociais 

Na grande maioria dos países, os media estão a mostrar, e o público está a assistir, com admiração entusiástica, a "Parada de Ouro" dos faraós. Uma procissão de carros carregou os restos mortais mumificados de 22 faraós pelo Cairo, sob forte segurança governamental, do famoso Museu Egípcio ao novo Museu Nacional da Civilização Egípcia do Egito. O governo do Egito planificou cuidadosamente este evento precisamente porque sabia como os media e o povo ficariam maravilhados. Um governo que se baseia no culto ao poder de um "líder forte", Abdel Fattah Al-Sisi, e que, portanto, não tem problemas em oprimir as pessoas e os media quando necessário, sabe muito sobre o fascínio pelo poder e a opulência. Mas os humanos são realmente naturalmente inclinados a adorar o poder e as hierarquias sociais?

Um resultado fascinante da inculturação é que tendemos a considerar normal e natural o que nos dizem para fazer e, portanto, o que as nossas sociedades fazem. Vivemos numa bolha social, que é reforçada por materiais educativos, pelos media, pela pressão dos pares e as normas sociais, e pela arte, entre muitos outros fatores. Fomos educados para sermos fascinados pelo poder: na escola em Portugal tive de aprender o nome dos faraós e reis das ditas "primeiras civilizações" e dos reis e colonialistas portugueses, apesar de já então os estudiosos terem documentado que aquelas pessoas sobre as quais eu estava a aprender a reverenciar tinham feito coisas horríveis, ao seu próprio povo e a outras sociedades. Então, o que é que nós, antropólogos, realmente sabemos sobre a história das hierarquias sociais, o poder e o seu culto na evolução humana?

Sabemos, com base em dados históricos, antropológicos, etnográficos e arqueológicos, que durante 99,8% da nossa evolução - desde que nos separámos dos chimpanzés há cerca de 7 milhões de anos até há uns 15 mil anos - éramos principalmente caçadores-coletores nómadas, ou forrageadores, caçando animais selvagens e colhendo plantas selvagens. Alguns grupos provavelmente eram mais sedentários, mas eram uma exceção. Sabemos, com base em estudos do nosso passado e dos poucos forrageadores nómadas vivos que não foram massacrados, dizimados ou de outra forma afetados pelo contacto com sociedades "civilizadas", que esses grupos nómadas tendem a ser principalmente igualitários. Não porque sejam "nobres selvagens", o que é uma forma romantizada e racista de retratá-los, como se eles não tivessem agência e apenas "obedecessem à natureza". Alguns primatas são naturalmente hierárquicos, como os gorilas com os seus machos alfa. Em vez disso, esses grupos nómadas são principalmente igualitários porque esta é a maneira mais eficiente de prosperar como forrageadores, por isso o igualitarismo é ativamente reforçado também por meio da inculturação, incluindo normas sociais, educação e humilhação daqueles que são egoístas ou abusivos. Por outras palavras, enquanto a sua inculturação envolve o culto da partilha, a nossa envolve o culto do poder e das iniquidades, que começou com o surgimento do sedentarismo e em particular da agricultura, independente em várias regiões do globo. Isso envolveu a opressão de outros - mulheres, crianças e pessoas de outros grupos, em grande parte porque as safras domesticadas só podem ser coletadas em determinados momentos do ano, portanto é necessária muita força de trabalho, incluindo crianças e escravos. Praticamente não há escravidão entre os forrageadores nómadas e, de qualquer forma, eles não poderiam ter escravos, pois os seus grupos são pequenos de mais e movem-se constantemente, e seja como for eles não precisam, nem querem, colher colheitas ou construir grandes pirâmides.

Quem realmente precisou de construir grandes edifícios como pirâmides foram os líderes políticos e religiosos das "civilizações" antigas, por muitos motivos, entre eles legitimar o seu poder e conquistar a "imortalidade". Como podemos ver com a atual admiração pela "Parada de Ouro", foram claramente muito bem-sucedidos. Com aglomerações populacionais em vilas e cidades, um indivíduo leigo não podia mais saber o que o seu grupo estava a produzir: demasiada gente, demasiadas safras. Começou a haver a necessidade de burocratas para contar e relatar coisas - evolução da escrita -, líderes políticos para usar essas contagens e relatórios e liderar - evolução do poder -, e líderes religiosos para legitimar esses líderes políticos e criar um novo tipo de inculturação - evolução da religião organizada e do culto à autoridade. Pela primeira vez, esses líderes conquistaram o monopólio do conhecimento, para que pudessem usá-lo e abusá-lo, levando à corrupção e ao abuso de poder. Consequentemente, criaram exércitos para governar, oprimir, conquistar, aculturar, escravizar e construir edifícios narcisistas como as pirâmides.

Desde então, fomos aculturados não apenas para aceitar isso como normal, natural, "o único caminho", mas também para ficarmos maravilhados com esses líderes e com os esses edifícios narcisistas. Os próprios termos que envolvem este desfile ilustram como funciona essa inculturação para adorar o poder, a opulência e as injustiças das "civilizações": a "Parada de Ouro" destinada ao Museu Nacional da Civilização Egípcia. Fomos aculturados e, consequentemente, estamos aculturando os nossos filhos, para reverenciar os poderosos, os opressores. Felizmente, as coisas mudaram um pouco recentemente, e agora a maioria das pessoas no planeta não adoram líderes como Al-Sisi, ou particularmente como Kim Jong-un, pois reconhecem o que esses líderes realmente são: opressores. Mas paradoxalmente a nossa inculturação para adorar o poder é tão poderosa que a maioria das pessoas ainda reverenciam os faraós, nas ruas do Cairo - muitos turistas viajaram para o Egito só para isso, o que era reconhecidamente parte do plano de Al-Sisi - ou nas televisões em todo o mundo, ignorando, ou omitindo, o facto de que se aqueles faraós estivessem vivos hoje, Kim Jong-un seria um santo comparado com eles. Ao contrário do que aprendemos na escola, eles não construíram as pirâmides ou plantaram e domesticaram os animais que comiam: eles usaram e abusaram de outros - os "essenciais" - para fazer isso, incluindo um grande número de escravos que viviam vidas desumanas. Mas então, como agora na época de covid-19, as pessoas continuam a adorar faraós enquanto negligenciam o valor dos "essenciais", aqueles que realmente fazem coisas para os outros. Isso não é normal ou natural, é simplesmente um culto completamente insensato e injusto do poder e das hierarquias sociais que fomos aculturados para aceitar cegamente dentro de um sistema sociopolítico muito específico que foi dominante apenas nos últimos 0,2% da nossa história evolutiva. É hora de mudar isso.

Antropólogo, Howard University, Washington DC
ruidiogo@howard.edu

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