Desequilíbrios na oferta de Ensino Superior

Está a começar o ano letivo, com as cidades a encherem-se de estudantes. Mais de 140 localidades recebem este ano alunos do Ensino Superior. Nos últimos 10 anos, só nos cursos tradicionais o número de candidatos a frequentar um curso superior público cresceu 52%. Na primeira fase, 81% estudantes conseguiram ser colocados, o que corresponde a um crescimento de 33% nos mesmos 10 anos.

O facto de existirem numerus clausus faz com que nem todos estudem o que queriam, nem onde queriam, com 52% dos alunos a conseguir estudar na sua primeira opção e 84% a poder optar por uma das suas 3 primeiras escolhas.

O país há muito que diversificou a oferta de cursos e opções de estudo, sendo conhecido que, para além destes jovens que agora acederam ao ensino convencional, são muitos os que estudam no Ensino Superior que optam por realizar Cursos Superiores Técnicos vocacionados para a obtenção de uma profissão concreta.

Podemos por isso constatar que, apesar da quebra da natalidade, estudar continua a ser um destino atrativo e são cada vez mais os que acreditam nisso. Apesar das despesas inerentes, altas, como é exemplo o alojamento, a alimentação e as deslocações, as famílias continuam a acreditar que o esforço é compensador e que um diploma superior é uma garantia de futuro.

A aposta que tem sido feita de um ensino menos fechado nos corredores e mais coproduzido com o tecido empresarial, social e territorial é o caminho que pode transformar Portugal.

Apesar dos bons resultados do setor, é preciso proceder a alguns ajustes. Por um lado, necessitamos de mais estudantes em determinadas áreas, em que o mercado de trabalho irá atravessar grandes carências e por outro temos áreas de estudo cuja oferta está sobredimensionada. Muito falada e muito preocupante presentemente é a formação de professores que não tem conseguido atrair jovens suficientes, colocando o problema de, num prazo muito curto, não haver professores suficientes. Este ano os candidatos em 1.ª opção foram bastante menos do que as vagas que existiam disponíveis. A eventual falta de professores não é por isso falta de esforço das instituições de Ensino Superior, mas antes falta de atratividade da profissão.

Outras áreas há onde também o número de oportunidades disponibilizadas suplanta em muito a procura, como é o caso da Agricultura, da Construção, das Indústrias Transformadoras e mesmo da Engenharia ou da Informática. É precisamente nestas áreas que estão a maioria das vagas para os que ainda se vão candidatar numa segunda fase. Em contraponto, áreas como a Saúde, o Jornalismo, o Direito ou a Veterinária quase não oferecem já oportunidades para o corrente ano.

Mas se nas áreas de formação há desequilíbrios, eles também acontecem a nível geográfico. A taxa de ocupação das instituições de Lisboa e do Porto, onde se situam 40% das vagas, foi de 99%, em contraponto às instituições do litoral que preencheram 95% e ao interior que preencheu 78%.

Os números, ano após ano, confirmam a necessidade de ajustar a oferta, mas fundamentalmente de sermos capazes de tornar o país mais coeso. A aposta que tem sido feita de um ensino menos fechado nos corredores e mais coproduzido com o tecido empresarial, social e territorial é o caminho que pode transformar Portugal. Mas para isso é preciso que as empresas apostem em melhores salários, que as autarquias apostem em maior atratividade para os seus territórios e que o governo incentive, pelas vias ao seu alcance, todo este caminho.

Presidente do Instituto Politécnico de Coimbra

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