De derrota em derrota até à vitória final?

Poucas coisas são tão irresistíveis quanto a política e a sua imprevisibilidade. A sua capacidade de surpresa. A sua vertigem, semelhante ao carro que mergulha num viaduto mal desenhado ou ao espreitar uma ravina de altura desconhecida. Na nossa política, o PSD é por certo o precipício mais íngreme, a rampa mais escorregadia, a contracurva capaz de maiores reviravoltas. Ninguém diria que Rui Rio, abandonado por Cavaco, Balsemão, Morais Sarmento, Moedas e uma mão cheia de caciques, sobreviveria à contestação de Paulo Rangel. Mas foi assim. Sem nenhuma vitória eleitoral para mostrar em quatro anos, sem uma única sondagem nacional acima dos 30% desde que é líder, com um Conselho Nacional crescentemente hostil e pouco mais do que a distrital de Aveiro e um município recém-recuperado pelos sociais-democratas atrás de si, Rio venceu a disputa interna deste fim-de-semana.

O que se seguiria, caso tal não houvesse sucedido, seria um caos politicamente disfuncional ‒ idêntico, aliás, ao que o nortenho deixou quando saiu da Câmara do Porto. O que se seguirá, tendo Rio prevalecido, será uma autêntica limpeza das estruturas ‒ divorciadas do sentido de voto da militância ‒ e do grupo parlamentar na Assembleia da República.

"Contra tudo e contra todos" não é, no caso, exagero. Para dar um exemplo: no distrito de Braga, onde Rangel contava com o presidente da distrital e com sete presidentes de Câmara em oito (!), Rio venceu. No Porto, onde Rangel partia como favorito, com unanimidade no distrito e a maioria das concelhias, Rio venceu. Em calão político, tratou-se de uma vaga de fundo. Não contra "o aparelho", que Rio naturalmente também cultiva, mas contra uma série de protagonistas do partido, antigos e por ser. Uma análise mais ideológica poderia dizer que o PSD, aos dias de hoje, se sente mais montapintista do que passista. E os militantes, contrariamente à vasta maioria dos comentadores e jornalistas, em que me incluo, não atribuem a menor importância aos debates quinzenais ou à liberdade de imprensa. Rio, sobre si mesmo, não desmentiria a indiferença.

As circunstâncias em seu redor foram-lhe verdadeiramente favoráveis: o bom resultado autárquico em setembro, que não foi vitória mas soube como uma, a convocação de legislativas antecipadas, que valoriza o seu perfil mais executivo do que tribuno, e os estudos de opinião, que o dão como capaz de roubar eleitorado tanto ao PS (pelo "centro-esquerdismo") quanto ao Chega (pelo voto útil). O contexto de instabilidade sanitária e económica também o beneficiou a ele, tradicionalmente inerte, prejudicando Rangel, de perfil mais enérgico.

O eurodeputado, que fez uma campanha irrepreensível a nível de elevação e ambição, foi ferido pela impossibilidade de polarizar a discussão durante estas diretas. Rio apressou-se a desmanchar os fantasmas do Bloco Central, recusando-o, e do Chega, negando-o. Ambos os candidatos pareceram, por isso, muito mais parecidos do que realmente são. E não clivando, acabando quase a defender o mesmo ("Somos uma alternativa", "Vamos ganhar ao Partido Socialista", "É preciso fazer reformas", etc.), dificilmente se mobiliza, dificilmente se muda. Até a persistência de Rio em dialogar com o PS, propondo regressar à tradição constitucional pré-2015, em que governa o mais votado através de negociações entre os dois maiores partidos, foi escudada pelo Presidente da República, relembrando os Orçamentos que viabilizou como líder da oposição a António Guterres.

O ano novo abrirá, então, com o fim de um ciclo político de quatro eleições: presidenciais, autárquicas, internas na direita e legislativas antecipadas. Pé ante pé, Rio foi sobrevivendo a todas. No PSD, cometeram o erro de subestimá-lo. O PS fará o mesmo?

Por experiência própria, não aconselho.


Colunista

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