Das sanitas e dos seus nomes

Celebra-se a 19 de novembro o Dia Mundial da Sanita - World Toilet Day. Nesta página, o leitor é confrontado com uma pergunta: "Quem se importa com sanitas?" A resposta dada é 3,6 mil milhões de pessoas, porque não dispõem de uma que funcione adequadamente e porque, quando algumas pessoas de uma comunidade não têm instalações sanitárias adequadas, é a saúde de todos que fica ameaçada, uma vez que a ausência de saneamento básico contamina fontes de água potável, rios, praias, terrenos agrícolas, espalhando doenças mortíferas entre a população. Na mesma página, defende-se o investimento em saneamento básico, afirmando que, por cada dólar investido, se obtém um retorno de cinco dólares, que são poupados em custos médicos e em dias de trabalho e que resultam da criação de postos de trabalho para garantir o bom funcionamento da cadeia de serviços de saneamento. Destaca-se ainda que, para raparigas e mulheres, o facto de dispor de instalações sanitárias em casa, na escola e no trabalho é fundamental para a realização do seu potencial humano e para o desempenho do seu papel na sociedade, especialmente durante a menstruação e a gravidez. O leitor é ainda acareado com a informação de que, globalmente, pelo menos dois mil milhões de pessoas se abastecem em fontes de água contaminada por fezes e que, por dia, cerca de 700 crianças com menos de cinco anos morrem de diarreia devido a água contaminada e à falta de saneamento básico e de higiene.

A pergunta "Quem se importa com sanitas?" poderá não ser pertinente para os habitantes mais jovens do Portugal de hoje. Os dados disponíveis na Pordata relativos à existência de instalações sanitárias mostram que, em 1987, apenas 77% das habitações as possuíam, tendo essa percentagem passado para 89%, em 1997. Podemos intuir que na década de 1970 essa percentagem seria muito mais baixa e que atualmente se encontre pelo menos acima dos 95%. Em 1971, quando cheguei a Portugal, a casa onde me alojei e que fora dos meus avós, situada numa aldeia a pouco mais de 20 km de Aveiro, não tinha nem instalações sanitárias, nem água canalizada, nem eletricidade, tendo esta apenas chegado em 1981. Nenhuma das duas escolas primárias da aldeia, a "velha" e a "nova", tinha água canalizada nem instalações sanitárias (nem, de resto, nenhum outro indicador de conforto), e não tenho a certeza de a "escola velha" ter sequer eletricidade.

A denominação portuguesa deste dia mundial está longe de estar estabilizada, encontrando-se referências à data, em Portugal, como "da sanita", "da casa de banho" e "das instalações sanitárias" (esta na página em português do Centro Regional de Informação para a Europa Ocidental, que apresenta uma mensagem do secretário-geral da ONU sobre o assunto, mas com indicação do dia 19 de dezembro); no Brasil, encontra-se "do banheiro" e do "vaso sanitário" - a variação lexical entre os dois países fica bem ilustrada. Não se encontra menção à data em qualquer sítio Web de nenhum outro país da CPLP, o que dá que pensar.

As diferentes denominações no mesmo país dificultam a comunicação num tema tão crucial para a vida das pessoas e mostram que World Toilet Day causa problemas aos tradutores, que parecem buscar formas eufemísticas para expressar uma realidade disfemística. Demonstram, além disso, o quanto a comunicação dos cidadãos e das instituições beneficiaria da existência de uma entidade que tivesse a seu cargo a regulação terminológica da língua portuguesa.

Professora e investigadora, coordenadora do Portal da Língua Portuguesa

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