Crise na Ucrânia e o Ressurgimento da Rússia

A crise na Ucrânia é já designada como um dos "conflitos congelados da Europa" sendo um confronto geopolítico, de dimensões imprevisíveis, por áreas de influência com a reemergência da Rússia como potência da Eurásia, inquietando os EUA que não querem ver China e Rússia fortalecer aliança.

Os EUA têm seguido teoria geopolítica do Heartland de Mackinder do domínio da Eurásia mantendo a Ucrânia longe da Rússia. A "Rússia sem a Ucrânia é um País; a Rússia com a Ucrânia é um Império".

Ucrânia (significa "fronteira") é um país da Europa Oriental que é essencial para a segurança nacional da Rússia. Kiev é o berço da pátria russa desde o século IX com as suas histórias entrelaçadas. Na Ucrânia existe uma profunda divisão história, cultural, linguística (75% fala ucraniano e no Leste 25% fala russo) e "politização da etnicidade" sem nunca ter sido resolvida a crise de identidade nacional. O País é controlado por clãs oligarcas manipulados pelo Ocidente e Rússia.

Os combates recomeçaram entre os militares ucranianos e os rebeldes apoiados pela Rússia na província de Donbass, (Donetsk, Leste da Ucrânia) que acusaram o governo de Kiev de se preparar para uma ofensiva em grande escala. As tropas na região foram colocadas em alerta máximo.

Há um recrudescimento da tensão entre a Ucrânia e a Rússia. Moscovo continua a mobilizar meios e tropas para junto da fronteira como não se viam, desde 2014, quando a Rússia aproveitou a revolução ucraniana para anexar a Crimeia. Esta península era uma parte do plano para a Rússia controlar a esquadra do mar Negro, que lhe confere a única saída para o Mediterrâneo.

A Ucrânia terá motivos para querer provocar a Rússia, tendo em vista a implementação do Acordo de Minsk, assinado em 2015 entre os líderes da Ucrânia, Rússia, França e Alemanha, que concordaram com um cessar-fogo que, no entanto, tem sido sistematicamente violado.

Kiev ao pedir directamente à Organização do Atlântico Norte (NATO na sigla em inglês) que abra caminho para uma candidatura de adesão está a querer trazer os EUA para a esfera do conflito como forma de pressionar o Kremlin no âmbito das negociações. Mas a Rússia considera a iniciativa um acto provocador. Nesse sentido, o Kremlin já ameaçou lançar medidas para garantir a segurança da Rússia, enquanto os EUA vão enviar tropas para reforçar o contingente na Alemanha e estão a ponderar o envio de navios de guerra para o Mar Negro aumentando assim a tensão entre Moscovo e o Ocidente.

Além do mais, o governo ucraniano é bastante instável. A popularidade do presidente Zelensky está cair e apenas 22% dos ucranianos votariam nele em 2021. A crise económica e social induzida pela pandemia vieram piorar o conflito. Demonizar a Rússia - até mesmo envolvê-la em um conflito no qual Kiev pode acusá-la de ser o agressor - pode funcionar como uma manobra de diversão.

Os perigosos conflitos de interesses não foram avaliados pela imponderada liderança da União Europeia (UE) na aproximação à Ucrânia, que é estrategicamente decisiva para a Rússia. Moscovo utiliza a "arma da energia" como principal "alavanca de pressão" para o controlo sobre Kiev. E, é também um instrumento político e diplomático controlando o mercado europeu que é frágil e fragmentado.

A Rússia continua a ser o grande fornecedor e representa 40% de todo o gás natural que chega à Europa; um número que na Alemanha, maior economia europeia, chega aos 75%. Com as relações entre Moscovo e Kiev deterioradas, a Rússia procurou outras vias alternativas para o fornecimento da Europa, através dos gasodutos Nord Stream 2 (Mar Báltico) e o TurkStream (Mar Negro).

O erro histórico do Ocidente foi ignorar a Rússia com o estatuto de grande potência que se quer afirmar e a geografia lhe confere ao agir pela geopolítica mantendo a independência estratégica ao nível nuclear que limita o poder ilimitado de Washington.

A Rússia nacionalista deseja recuperar a sua esfera de influência e vê os EUA e UE como adversários ou inimigos. Na doutrina militar russa a NATO representa a maior ameaça à segurança nacional. Por outo lado, o duelo das sanções económicas pela interdependência económica divide os europeus e não consegue isolar a Rússia como pretendiam os EUA.

Putin pretendia a integração da Ucrânia na União Económica Euroasiática - projecto de cooperação orientado para o espaço pós-soviético cobrindo 15% da superfície terrestre - como forma de travar a expansão do Ocidente para Leste. E é visto como ameaça no Ocidente.

A UE não soube gerir a relação com a Ucrânia e Rússia repetindo, ao nível estratégico, os erros irreparáveis cometidos ao nível político e económico.

A Rússia tirou partido da iniciativa estratégica - o acesso ao mar Negro através da Crimeia - e reclama o controlo da fronteira de segurança. Porém, a actual "Paz quente" de maior instabilidade que a Guerra Fria conduz à irrupção de irracionalidade.

A crise da Ucrânia é ainda consequência da crise de segurança na UE e da NATO. É também o resultado do falhanço da política externa dos EUA, cuja parceria estratégica foi seriamente comprometida com tentativas de alargamento da NATO (Geórgia e Ucrânia) e imposição do sistema antimíssil na Polónia.

O conflito exigia a diplomacia de Kissinger - sem mediatização e ignorância - que defendia não aproximar a NATO às fronteiras da Rússia incentivando um estatuto de neutralidade para a Ucrânia renunciado pela UE. Perigosa decisão para a Europa.

O direito e o dever de defender os cidadãos de etnia russa são reclamados pela Rússia tendo Putin lembrado, de forma incisiva, que o Leste da Ucrânia era chamado de "Novorossiya" (Nova Rússia).

A violação sistemática do cessar-fogo intensifica um novo ciclo de violência com a preparação de Kiev para a guerra criticada por Moscovo. Porém, a táctica russa passa pelo alargamento da zona de conflito com operações sofisticadas não convencionais (guerra híbrida). E astúcia diplomática visa congelar o conflito assegurando a federalização ou neutralidade da Ucrânia. Ou, se necessário, afundar a Ucrânia numa profunda crise social que leve os cidadãos a optarem por um regime fiel a Moscovo.

É evidente o confronto geopolítico impiedoso pelo domínio da Eurásia por duas vias antagónicas - o Atlantismo e o Eurasianismo. A dificuldade para os EUA e Rússia reside, pois, em encontrar o exacto equilíbrio que permita, por um lado, associar ao poder da força o poder da legitimidade sem minar a relação de forças regionais.

A UE sem liderança tem sido conduzida pelos interesses divergentes da Alemanha e EUA com mútua contenção. A nova pareceria estratégica da Rússia com a China e, dentro de algum tempo, o dinâmico eixo Berlim-Moscovo contraria a ambição dos EUA de isolamento da Rússia. Vale a pena lembrar, que a economia alemã está muito mais interligada com a russa do que com os outros países europeus.

As relações dos EUA com a Rússia e com a Alemanha serão, nos próximos anos, um "factor de distanciamento ou tensão entre alemães e americanos" (Friedman), que vão afectar a UE.

A crise da Ucrânia permitiu a reorientação estratégica da NATO e requer melhor articulação com a UE, cuja segurança comum está fragmentada pela crise económica e financeira. A renovação da arquitectura de defesa da UE constitui uma prioridade sem condicionar a soberania da intervenção autónoma dos Estados membros. Não basta afirmar a paz esquecendo que a resolução de conflitos pode obrigar à utilização da força militar.

As catástrofes, conflitos e crises não avisam. Por isso, a segurança e defesa não podem ser improvisadas! Nunca é tarde demais para mostrar alguma sabedoria na perigosa escalada de crises que deviam ser contidas, se prevalecesse a ponderação.

A actual crise nas relações entre o Ocidente e a Rússia é um momento definidor de um novo relacionamento entre todos os actores políticos do espaço euro-atlântico. A crise ucraniana constitui o mais importante desafio estratégico das últimas décadas. Ela resulta da evolução e intersecção de questões identitárias, politicas, socioeconómicas e geoestratégicas. Desta forma, a sua compreensão não é possível sem a análise do quadro geopolítico mais vasto em que Kiev se insere, bem como das percepções e interesses dos vários atores envolvidos.

Capitão-de-Fragata (Reforma)

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