Carapaus de corrida

Com as suas "Vinte mil léguas submarinas", Júlio Verne leva-nos 150 anos de avanço. Por cá, o mar continua a ser a grandiosa promessa, diante da qual meio mundo ainda nem sequer se atreve a molhar os pés. Em clima de guerra, que no plano económico já é global, e na mesma semana em que se realizam duas outras grandes cimeiras - G7 e Nato - Lisboa acolhe por estes dias a Conferência dos Oceanos, uma iniciativa das Nações Unidas com forte impulso da diplomacia portuguesa. Trata-se de um apelo à ação, exortando os líderes mundiais a aumentarem a ambição, a mobilizarem parcerias e dilatarem o investimento em soluções baseadas na natureza para reverter o declínio na saúde dos oceanos.

Saúde dos oceanos e nossa. O mar governa os sistemas globais que tornam a Terra um lugar habitável. A nossa chuva, a água potável, o clima, as costas, uma parte dos nossos alimentos e até mesmo o oxigénio no ar que respiramos são fornecidos e regulados pelo mar. O oceano, que é um dreno natural de gases de efeito estufa e ajuda a combater as mudanças climáticas, enfrenta várias ameaças: acidificação, pesca ilegal e não declarada (um negócio que apenas perde para o tráfico de drogas e de armas) e poluição. Como ilhas flutuantes por esses mares, há gigantescas sopas de plástico que matam a vida marinha e ameaçam asfixiar o nosso mundo. É lixo que despejamos nos oceanos, à (sem) razão de mais de 8 milhões de toneladas por ano. Se nada for feito para contrariar a tendência, dentro de poucas décadas haverá mais plástico do que peixes nos mares. Um produto que só utilizamos por horas leva 450 anos a decompor-se, enquanto é absorvido pela fauna marinha e, em pequenas partículas, na nossa própria cadeia alimentar.

Entre nós, é indelével a afamada "alma marítima" que atravessa séculos e serve de inspiração à literatura e cultura portuguesas, desde a arte à gastronomia. Quando se vive num país como Portugal, debruçado sobre o oceano e com a maior zona económica exclusiva da União Europeia, esta ligação intrínseca entre a vida e o mar deveria moldar-nos o caráter. Mesmo assim, ainda são poucos os que percebem quantos elementos da vida quotidiana estão ligados ao mar: os oceanos produzem a maior parte do nosso oxigénio, armazenam 97% da água do globo, e uma significativa percentagem de alimentos provém dos mares. Os mesmos que já fornecem 4 terawatts/hora (um número com 12 zeros à direita) de energia eólica offshore, 95 milhões de m3 de água potável dessalinizada por dia, 20% de proteína animal, cerca de 34 mil produtos naturais que apoiam aplicações médicas e farmacêuticas, um em cada quatro empregos no setor de turismo, para além das terras raras que atraem a mineração em águas profundas.

A chave para usar de forma sustentável os recursos oceânicos tem sido e é o conhecimento, que resulta do investimento em investigação e tecnologia. Mas temos andado devagar, e nalguns casos até em recuo, como é o caso da nossa frota pesqueira, a segunda mais envelhecida da União Europeia, com embarcações cuja idade média anda pelos 45 anos, e hoje reduzida em um terço do que já foi. Quase 25 anos depois da nossa Expo98, também dedicada aos oceanos, Portugal pode e deve posicionar-se como ator relevante no desenvolvimento de soluções para a chamada "economia azul", sustentável e amiga do ambiente, modernizando as indústrias pesqueira e conserveira e apostando na energia marinha, particularmente a eólica. Se Júlio Verne foi capaz de profetizar, é responsabilidade coletiva, a começar nos nossos dirigentes, agir hoje com urgência. Enquanto permanecermos de toalha estendida, há todo um mar que separa os profetas dos carapaus de corrida.

Jornalista

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