Caetano, Gil, Chico e o diabo

Caetano Veloso, o autor de Milagres do Povo, que começava com os versos "quem é ateu e viu milagres como eu/Sabe que os deuses sem Deus/Não cessam de brotar, nem cansam de esperar", acaba de lançar o single Deus Cuida de Mim, onde canta um louvor ao lado do autor da música, o pastor evangélico progressista Kléber Lucas.

Porquê? "Eu acho que foi Deus. Eu não sou propriamente religioso, fui criado numa família católica, com uma visão religiosa das coisas, mas depois me afastei muito, na minha juventude eu era até antirreligioso", responde o ícone da música brasileira, que hoje se define, com aquele sorrisão que só ele atinge, como "um pós-ateu".

Mas a reconversão de Caetano, por mais interessante que seja, foi abafada por notícias em torno de dois dos seus parceiros mais longevos, Chico Buarque e Gilberto Gil, ambos ainda ateus, até notícia em contrário. "Ser ateu faz parte do meu tipo sanguíneo", disse o primeiro, em 2012. "Deus é uma invenção do Homem", afirmou o segundo, há dois anos.

Gil foi ao Qatar, acompanhado pela mulher, Flora, e dois netos, assistir ao Brasil-Sérvia, estreia dos canarinhos no Mundial de Futebol.

Já octogenário, dirigia-se sem pressas para a bancada do Lusail Stadium quando foi abordado por um "cidadão de bem" ou "patriota", como se autodenominam os apoiantes do defunto Bolsonaro, que gritou o nome do presidente derrotado, primeiro, e "Lei Rouanet", depois, em alusão ao projeto, ainda do governo de Collor de Mello, de incentivo à produção cultural, que se tornou um insulto no léxico bolsonarento. No fim, presenteou Gil com um sonoro "filho da p...", orgulhosamente filmado por um amigo tão boçal quanto ele.

No dia seguinte, o músico comentou, com a leveza rara de quem consegue planar acima do ódio terreno, o ataque endiabrado do "bolsominion" ou "patriotário", como são denominados pelos outros os apoiantes do defunto Bolsonaro, agradecendo a solidariedade dos compatriotas. "E amanhã [dia de jogo dos canarinhos outra vez], vai dar Brasil de novo!", rematou.

Chico, entretanto, havia processado Eduardo Bolsonaro por uso indevido de uma música sua durante a campanha eleitoral. Perdeu.

A magistrada substituta do 6.º Juizado Especial Cível da Comarca da Capital Lagoa, provavelmente uma "cidadã de bem" e "patriota" (ou "bolsominion" e "patriotária") alegou que ele não provou a autoria de Roda Viva, tema de 1967 apresentado ao público num festival da música popular que só aceitava canções originais e inéditas e ponto de partida para peça teatral homónima escrita pelo artista.

Buarque, que nunca foi obrigado a provar aos censores na ditadura ser o autor das suas obras, vai interpor nova ação: "Apesar de o próprio Eduardo Bolsonaro, na publicação que fez, ter dito que a música era do Chico Buarque, e de ser um facto público e notório, já estou providenciando imagens de livros, foto do disco e manuscrito da música para provarmos o óbvio", disse o seu advogado.

No dia seguinte, o músico comentou, com aquela leveza rara de quem consegue planar acima do ódio terreno, a sentença endiabrada da juíza, fazendo piada durante um concerto. "Dizem na internet que quem compõe as minhas músicas é ali o Chico Batera", afirmou, perante os risos do público e do seu baterista.

Enquanto Caetano se reaproxima, docemente, de Deus, Gil e Chico mantêm-no, seguramente, no coração. E os três querem distância do diabo.

Jornalista, correspondente em São Paulo

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