Aviso russo

Na semana passada, os israelitas realizaram um ataque aéreo habitual às instalações militares na Síria, ligadas ao Irão, matando vários soldados e ferindo outros. Foi uma das centenas de ataques nos últimos anos, levados a cabo contra milícias com ligações iranianas na Síria e grupos libaneses do Hezbollah. A maioria dos ataques foi realizada em concertação com a Rússia, que tem soldados e equipamentos militares na Síria, defendendo o regime do presidente Bashar al-Assad, para evitar acidentes. Este sistema funcionou bem até agora, e não houve relato de nenhum incidente, exceto um, do qual foram atribuídas responsabilidades a ambos os lados.

Mas, a guerra na Ucrânia pode mudar tudo. Os soldados russos dentro daquele país são invasores, mas a pressão sobre eles cresce a cada dia, independentemente das vantagens que os militares russos têm em relação aos ucranianos. Essa pressão é resultado das severas sanções impostas à Rússia pela maioria dos países da União Europeia e dos Estados Unidos da América e, definitivamente, terão o seu impacto na vida quotidiana da Rússia. Para minimizar essas pressões, a Rússia teria de terminar a guerra o mais rapidamente possível, mas isso continua a ser apenas uma teoria e os combates na Ucrânia provavelmente durarão muito mais do que o esperado em Moscovo.

Nesta situação, os estrategas russos teriam de procurar outra forma de contrapressão, tentando enviar uma mensagem ao Ocidente de que eles ainda têm possibilidades de criar vários problemas, especialmente no Médio Oriente. A Síria é um exemplo muito bom e está obviamente a assumir o seu papel na guerra russo-ucraniana.

O Médio Oriente foi, e ainda é, um terreno muito fértil para a realização de guerras entre países que não são da zona.

Assim, o ataque israelita na semana passada contra as instalações militares no noroeste da Síria destruiu o alvo como de costume, mas no final foi "cumprimentado" com mísseis S-300 disparados no momento em que os aviões israelitas estavam a abandonar a área. Os mísseis não atingiram o alvo, mas talvez não fosse suposto. Talvez estivessem a "passar" a mensagem de que as coisas mudaram.

Desde 2018 que Israel e a Rússia tinham um entendimento sobre como evitar qualquer acidente durante os ataques israelitas na Síria. Funcionou normalmente até agora, quando os mísseis do sistema antiaéreo S-300 foram disparados para o ar. Este sistema é operado pelos soldados russos em terra e não há possibilidade de que tenha sido feito sem a aprovação oficial russa.

O incidente levanta a seguinte questão: foi um aviso russo aos israelitas de que a sua última posição negativa em relação ao papel russo na Ucrânia está finalmente a ter resposta de Moscovo? Parece lógico e real e com certeza que os israelitas vão levar isso muito a sério. Sabe-se que a Rússia na Síria também possui um sistema antiaéreo S-400 mais sofisticado, mas o seu papel ainda não foi testado, pois o objetivo é proteger os russos apenas se for necessário.

As críticas à conduta russa na Ucrânia e os comentários antissemitas dos seus líderes levaram Israel muito mais para o lado dos países ocidentais que se opõem fortemente à intervenção russa na Ucrânia, o que Israel estava a tentar evitar, tendo em mente os seus próprios interesses no Médio Oriente. A oferta israelita de mediação entre ucranianos e russos deixou de ser realista e a questão das sanções contra Moscovo virá à tona nas discussões políticas em Jerusalém como uma opção possível. Portanto, a Rússia enviou-lhes obviamente um aviso e este é muito mais sério do que pode parecer hoje.

O Médio Oriente foi, e ainda é, um terreno muito fértil para a realização de guerras entre países que não são da zona.

Antigo embaixador da Sérvia em Portugal e investigador do Centro de Estudos Internacionais do ISCTE

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG