Até 2023, então

Não deixa de ser um tanto extraordinário que António Costa, com provavelmente o início de mandato mais atribulado de que há memória, tenha ido ao debate do Estado da Nação passar incólume a uma oposição renovada, uma esquerda distanciada e um país a arder. Com o Orçamento finalmente em vigor há três semanas, o seu terceiro governo começou com uma crise antes sequer de tomar posse (a do voto dos emigrantes), sofreu a humilhação internacional do acolhimento de refugiados em Setúbal (e não só), entregou um Serviço Nacional de Saúde incapaz de responder à imprevisibilidade de um feriado, viveu um tumulto interno novelesco com o ministro das Infraestruturas, orçamentou menos despesa para o combate aos incêndios do que no ano anterior e confirmou o seu próprio fracasso ao concluir, depois de sete anos de governação, que o SNS, a floresta e, quiçá, o planeta precisam de ser "geridos" de outra maneira. O problema "é estrutural" dizem eles, que estão a cargo da "estrutura" - o Estado - há quase uma década.

O estado do governo é tão débil quanto o Estado da Nação, com a particularidade de o primeiro, por mérito de António Costa, transparecer com menos evidência. A idêntica debilidade da oposição, perdida entre o reality show de Ventura e lideranças parlamentares do PSD que metem dó, favorece esse encobrimento. Do debate desta semana, há duas frases que importam e ambas foram do primeiro-ministro: a inflação, afinal, não é transitória; e a crise da guerra "talvez não seja a última". Costa, como a gestão das Finanças já demonstra, está a pensar em 2023. E é a subida da taxa de juros, o risco de recessão e estagflação do próximo ano que reduzirão a tolerância dos portugueses a um governo cansado de si mesmo, antes de se cansarem dele. Até lá, dificilmente a oposição conseguirá um desgaste mais eficiente.

De forma peculiar, é o PS que apresenta uma estratégia de oposição (ainda contra Passos Coelho, a austeridade e tudo mais) e o PSD que mostra iniciativa como se fosse governo.

Nos primeiros dias de convívio entre António Costa e Luís Montenegro, a vida não foi fácil para o novo líder da oposição. Apesar de uma notável capacidade de previdência, o recém-eleito presidente do PSD viu confirmada a ideia de que, pior do que não estar no Parlamento, é não ter ninguém para estar por ele. Montenegro alertou para a prevenção dos fogos uma semana antes das chamas chegarem e pediu um pacote de apoio às famílias - anunciado pelo governo esta semana - desde maio. No plenário, ninguém veio clamar essa razão antes do tempo, e confirmada por ele.

De forma peculiar, é o PS que apresenta uma estratégia de oposição (ainda contra Passos Coelho, a austeridade e tudo mais) e o PSD que mostra iniciativa como se fosse governo (antecipando temas e condicionando a agenda de decisões como o aeroporto ou a regionalização). Politicamente, tal pode ser eficaz, mas acarreta riscos: Montenegro faz por responsabilizar o PS, que tem uma maioria absoluta, recusando revelar posições antes do governo. O problema, para quem se fez eleger com Acreditar como máxima, é que afirmar que Costa deve decidir não chega como crença. O líder do PSD tem resistido aos cantos de sereia do primeiro-ministro. Mas também tem de cantar alguma coisa.

Depois da rentrée, com a discussão do novo Orçamento emparelhada com nova tensão social, o governo perderá a sua impermeabilidade à circunstância do país. Fazer oposição à oposição deixará de ser suficiente. A possibilidade de reformas passará a miragem porque quem não reformou em bonança dificilmente reformará em crise. Estes primeiros meses da legislatura, com ares de recomeço e reaproximação, nada têm que ver com os quatro anos que se seguirão.

A corrida, como sabe quem deve, começa em 2023.

Colunista

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