Ao juiz: 186 volumes BES explicados em 5 minutos

Era uma vez uma criança abandonada às portas da Misericórdia de Lisboa, corria o santo ano de 1850, de nome posto em batismo José Maria, acrescentado depois de "Espírito Santo" por alturas do Crisma. Muito pobre e lutador, montou bem cedo, pelos 20 anos, uma lojinha de câmbios e lotaria espanhola para as bandas da Calçada do Combro, reinava ainda D. Carlos I. Tão bem-sucedido foi que, ainda novo, ficou rico. E depois banqueiro, mudando-se então para a mais vetusta Rua Augusta, ali por volta da entrada do século XX.

José Maria Espírito Santo morreu em 1915 e deixou aos três filhos homens (e à primogénita Maria) vastas sociedades agrícolas no Ultramar e principalmente uma casa bancária já fina, que o varão mais velho, chamado a gerir, transforma em 1920 no Banco Espírito Santo. Rapidamente este se alcandora a 2.º maior banco lisboeta, mais tarde Banco Espírito Santo e Comercial de Lisboa, por fusão com o banco da família Queiroz Pereira, corria o ano da graça de 1937.

Os sucessores de José Maria seguiram as pisadas de sacrifício e labor do patriarca, tornando os Espírito Santo na gente fina de Lisboa-Cascais. A burguesia triunfou sobre a nobreza. Sobreviveram a todas as crises e guerras. Atraem monarcas e Rothschilds aos seus serões deslumbrantes, além de artistas de Hollywood. Pela década de 60, Portugal era gerido por eles, Champalimaud, os Mello e uns mais. Claro, sob supervisão de Salazar.

No 25 de Abril, já se sabe o que aconteceu. Otelo e Vasco Gonçalves fanaram-lhes o banco, íamos por volta de 11 de Março de 75. Exilados no Brasil, em Inglaterra e na Suíça, os Espírito Santo refazem a fortuna, ajudados pelos Rockefeller, Agnelli e J.P. Morgan, entre muitos anticomunistas da época. Entretanto, por cá, anos depois, Soares e Cavaco reescrevem o destino da família. Refaz-se o poder financeiro dos grupos nacionalizados pré-25 de Abril nas privatizações. A história mostra, no entanto, que não tinham capital para a economia aberta dos novos tempos. E quase todos vendem. Exceto os Espírito Santo.

A chegada de Salgado

É em 1991 que Ricardo Espírito Santo Silva Salgado, bisneto do fundador, ascende ao poder por morte do tio e no exato momento da privatização. Daqui para a frente conta-se num instante: Salgado tinha charme e ambição. Ambas, no entanto, não eram suficientes para financiar a corrida suicida de liderança do mercado bancário português. Sim, porque o BES era 2.º no ranking, atrás do BCP de Jardim Gonçalves (a Caixa não contava neste campeonato). E os dois banqueiros desatam numa alavancagem que levaria ambos ao precipício.

A verdade é que praticamente desde o início, a numerosa Família não tinha dinheiro suficiente para manter a maioria de um banco cotado em bolsa. Como tal, Salgado levou toda a gente ao colo durante duas décadas tendo como contrapartida o poder absoluto. Criou holdings familiares artificiais, sumptuosos negócios lateralizados do "GES", sempre a precisarem de liquidez do BES, descobrindo novos financiadores deslumbrados pelo acesso à elite e dispostos a injetar fortunas de uma vida nas estruturas de capital Espírito Santo. Um clã.

Até que, já entrava o outono de 2013, o então rival Pedro Queiroz Pereira (Salgado tentava roubar-lhe o grupo) juntou em dois meses os números que consultoras reputadíssimas e dezenas de técnicos do Banco de Portugal não viram anos a fio. Diagnóstico negro: uma cascata de dinheiro a rolar pelo mundo inteiro, muito dele via offshores, contas nunca consolidadas, tudo com o objetivo de não abrir brechas na inquestionável reputação nessa marca mundial, "Espírito Santo". Mas já nessa altura os clientes do banco andavam a ser endrominados por fundos de investimento do GES e papel comercial com contas falsas que tapavam buracos colossais em empresas esvaídas de capital. Tudo aos balcões do BES.

Posto a nu, Ricardo Salgado tentou usar de todo o seu poder. Tinha enviado ao amigo de Sócrates vastos milhões, mas agora não eram muito úteis; havia avençado gente importante, incluindo ministros; financiara partidos; continuava a mandar nos mil milhões da PT; tinha uma palavra na EDP; ninguém lhe dizia não. Ele era o líder do dinheiro em Portugal. Iam-lhe tirar o tapete? Chamou Portas. Curvou-se em desespero perante Maria Luís Albuquerque, a ministra das Finanças, pedindo-lhe salvação via Caixa Geral de Depósitos ou o dinheiro da troika que sempre recusara. Tudo inútil. Passos Coelho assistia, comentava, mas não agia. O mercado a funcionar.

E assim, no ido 3 de agosto de 2014, o governador Carlos Costa sentencia o BES, depois de descobrir, semanas antes, que Salgado fez desaparecer (ou não evitou fazer desaparecer) 5,7 mil milhões de dólares do BES Angola, postos à guarda do seu ex-pupilo favorito, dr. Sobrinho. Eram 5 Bis (de biliões), como ele gostava de dizer, a juntar aos outros 5 Bis do buraco negro do GES. 10 Bis, assim, pela rama. Fora o incalculável que se perdeu em vendas ao desbarato no Novo Banco e no património GES por mais de 50 países.

E assim chegamos ao novo juiz

Foi, portanto, aos correntes dias de setembro de 2022 o jovem juiz Pedro Correia chamado para julgar o mais complexo caso da história da Justiça Portuguesa, e, para isso, pedem-lhe que leia já 545 páginas por dia x 20 dias, só da Acusação, além dos 186 apensos volumes correspondentes a toneladas de papel. Pois, digo-lhe: não se mace. É simples. O dr. Salgado já não vai a jogo. Para condenar alguém, há o braço direito dele, o dr. Morais Pires. Nunca saberemos se tinha a sagacidade de um Rothschild ou um rotweiller. Condenar este, e mais uns trocos, disfarça isto tudo.

Perdemos o principal grupo financeiro, a PT e mil outras coisas mais. Quem acredita no oráculo do Fernando Pessoa, medita. "Ó mar Salgado, quanto do teu sal, são lágrimas de Portugal." A História de Portugal estava escrita. Aquele país morreu ali. Oremos.

Jornalista

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