Agarra que é turista!

Já entrámos no verão e apenas um quarto dos portugueses que podem gozá-las marcaram férias, sendo que metade dos que planeiam viajar tencionam fazê-lo cá dentro. A covid-19 insiste em manter-nos, a nós e aos outros, nesta espécie de reclusão domiciliária, mas foi preciso um ano de pandemia para demonstrar que o turismo, que chegou a representar quase 20% da riqueza que produzimos, é a indústria mais importante do século, como fator de criação de emprego e sustento de inúmeras outras atividades económicas.

A decisão do governo de Boris Johnson de recolocar Portugal entre os destinos de potencial contágio limita gravemente a recuperação do turismo nacional, uma vez que os britânicos representam um quinto dos visitantes estrangeiros, sobretudo na procura de sol e praias. E as perdas económicas são já evidentes, somando-se às sofridas ao longo do ano passado. A pandemia veio demonstrar também o estreito vínculo entre saúde pública e robustez económica, pelo que os meses vindoiros se jogam certamente na procura deste equilíbrio.

A par dos esforços das autoridades portuguesas e europeias para limitar a propagação das infeções, o próprio setor do turismo tem de apostar mais na qualificação e na diversificação da oferta, aproveitando os ensinamentos da grande dependência de uma procura excessivamente baseada na combinação sol, praia e preços baixos. Valorizar a oferta de atributos adicionais do nosso país - históricos, culturais, artísticos ou gastronómicos, nas diferentes regiões - melhorará decerto o rendimento médio e alguma erosão ambiental que resulta dos mais de 27 milhões de turistas que nos visitaram em 2019. E a entrada de novos recursos financeiros, como os associados aos Fundos da Próxima Geração, deve ser utilizada não só para reconstruir, mas para modernizar e adaptar uma indústria que pode contribuir ainda mais para o crescimento e torná-lo mais sustentável e menos exposto a flutuações na procura.

Durante anos, subestimámos este setor, confundindo turismo com turistas, literalmente gente tão deslocada como nós quando somos turistas em terra alheia. Mas vamos bem a tempo de resolver o paradoxo e demonstrar que um vírus, por mais funesto que seja, não é suficiente para decretar o desaparecimento dessa formidável invenção da modernidade, germinada há século e meio e que explodiu após a Segunda Guerra Mundial. Porque foram necessárias duas revoluções para que inventássemos o turismo. Uma, tecnológica: a revolução dos transportes e das comunicações, que tornou possível viajar mais rápido e barato. E outra, social, que gerou viajantes - uma revolução que foi fruto de lutas muito duras e intermináveis, através das quais conquistámos progressivamente o lazer remunerado. Porque para virar turista não basta ter tempo livre, coisa que não falta a um desempregado. Espreitando o retrovisor da história, antes de Bismarck na Alemanha, do New Deal nos Estados Unidos ou da Frente Popular na França, uma grande parte da humanidade nunca tinha desfrutado de rendimentos durante os períodos de inatividade. Ou seja, nunca tinha gozado férias em idade produtiva ou uma pensão depois disso. Hoje, por comparação, pelo menos 95% dos turistas que vimos por aí nos últimos anos estavam em gozo de férias remuneradas ou tinham uma pensão. O que nós andámos para aqui chegar! Aquelas duas revoluções não transformaram apenas as nossas vidas - elas fizeram da possibilidade de viajar a pedra angular da nossa ideia de liberdade. Não renunciemos a ela.

Jornalista

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