Acima da média

Os políticos deitam foguetes, os jornalistas aplaudem, os empresários sorriem embevecidos, os tolos orgulham-se, Portugal cresceu acima da média europeia em termos de Produto Interno Bruto (PIB). Não percebem que crescer acima da média europeia não significa nada e que mesmo crescendo acima da média Portugal pode ficar, em menos de uma década, como o país mais pobre da União Europeia.

Imaginemos, para ser mais fácil, que temos 10 países, 7 mais ricos têm um PIB de 200, dois intermédios têm um PIB de 150 e o mais pobre tem um PIB de 130. Imaginemos que Portugal é um dos intermédios. Imaginemos agora que os ricos crescem 1% ao ano, que Portugal cresce a 2,1 % ao ano e os outros dois a 5% ao ano. A média de crescimento anual dos 10 países é de 2%. Portugal está pois a crescer acima da média. Em 6 anos contudo será o país mais pobre do grupo, sendo ultrapassado pelos dois mais fracos e de maior crescimento e não conseguindo atingir nenhum dos mais ricos. Simples matemática.

Estar acima da média não quer dizer absolutamente nada em termos do nosso posicionamento no ranking. Importante é saber como é que a nossa taxa de crescimento relativa aos outros países nos coloca no médio prazo. Atira-nos para o fundo da tabela? Faz-nos progredir e ultrapassar concorrentes?

E de que ponto partem as economias? Se Portugal teve a maior queda do PIB no primeiro trimestre de 2021 é natural que depois, partindo de uma base diminuída, consiga crescer um pouco mais como aconteceu no segundo trimestre. E como sabemos se cair 10% e depois crescer 10% vou ficar abaixo do ponto de partida.

É esta incapacidade de perceber as trajetórias, esta dificuldade em estabelecer metas consentâneas com os objetivos de longo prazo, em perceber se o desempenho é bom ou mau, que carateriza as nossa elites governantes e económicas e que tem levado o país para os últimos lugares europeus e a começar a ombrear com as economias latino-americanas algumas das quais estão já em muitos aspetos à nossa frente.

Os jornalistas económicos, muitos dos quais com formação sólida, devem tomar os números de forma mais crítica e analisar as trajetórias que desenham, as tendências que indicam, antes de reproduzir as conclusões simplórias que governantes medíocres deles retiram para satisfação própria e vantagens eleitorais imerecidas.

Num país com uma baixa literacia matemática é muito fácil fazer demagogia com números e percentagens. Por isso a vigilância dos jornalistas é fundamental.

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