A saúde mental constrói-se desde cedo

No Dia Mundial da Saúde Mental, que se assinala este domingo, devemos lembrar que os resultados mais recentes do estudo da OMS, Health Behaviour in School-aged Children, envolvendo 6000 adolescentes portugueses, revelam um preocupante decréscimo global da sua saúde mental e física. Os pais devem estar atentos a mudanças no humor, no comportamento ou nas rotinas dos filhos e procurar a ajuda de um profissional de saúde.

A ciência tem vindo a demonstrar que a saúde de um adulto é influenciada por acontecimentos e vivências nos primeiros anos de vida e, até mesmo, antes do nascimento. Isto diz respeito não só à saúde física - hábitos alimentares, acidentes, atividade física - como também à saúde emocional e desenvolvimento psicoafetivo.

De facto, os dois primeiros anos de vida são a fase em que o desenvolvimento humano é mais rápido: neste período, a criança cresce, adquire a marcha autónoma, a fala e inicia a socialização. Por outro lado, sendo um período de vida em que a dependência do meio é maior, é também uma das fases de maior vulnerabilidade e que pode condicionar o percurso do bebé que irá crescer e será um adolescente e um adulto com mais ou menos saúde mental.

Sabe-se, hoje, que as experiências precoces têm grande impacto nas respostas do organismo, na expressão genética e na construção da arquitetura cerebral, modulando inclusivamente alguns sistemas, nomeadamente o neuroendócrino e o cardiovascular. O modo de funcionamento destes sistemas vai interferir nas competências de aprendizagem, empatia, socialização e autorregulação do indivíduo.

Torna-se, assim, urgente, promover a nossa saúde mental desde a gravidez, acompanhando a família e a criança em crescimento de forma atenta e valorizando preocupações quer dos pais quer de outros interlocutores que com estes convivam, nomeadamente professores e os pares.

Em todo o mundo, de acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), cerca de 20% das crianças e adolescentes sofrem de problemas de comportamento, desenvolvimento ou emocionais, sendo que 1 em cada 8 apresenta uma perturbação mental. Em Portugal sabemos que, entre os 5 e os 14 anos, o maior impacto negativo na qualidade de vida se deve às perturbações mentais e comportamentais.

Os resultados mais recentes do estudo da OMS, Health Behaviour in School-aged Children, envolvendo 6000 adolescentes portugueses, revelam um preocupante decréscimo global da sua saúde mental e física, comparativamente com anos anteriores, com mais mal-estar psicológico, tristeza, stress e insatisfação.

Na verdade, as alterações emocionais e de comportamento na infância aumentam o risco de complicações na vida futura do adolescente e do adulto jovem.

Um dos aspetos mais importantes para promover a saúde mental na infância e adolescência, é saber conhecer e compreender a criança em crescimento. Conhecer a criança é saber o que esperar em cada fase de desenvolvimento e conseguir interpretar o seu comportamento. É perceber quando alguma queixa corresponde a algo normativo, típico de uma fase de desenvolvimento e, por isso mesmo, sem significado clínico e, por outro lado, estar atento a comportamentos que se mantêm por várias semanas ou meses, que são demasiado intensos ou que interferem de forma muito importante no funcionamento da família.

Em qualquer um dos casos, sempre que haja dúvidas, ou sempre que um comportamento - seja birra, tristeza, isolamento, irritabilidade ou comportamentos auto ou heteroagressivos, os pais devem poder contar com a ajuda de um profissional de saúde - pediatra, pedopsiquiatra, psicólogo, que os ajude a compreender o seu filho e, eventualmente, orientar a criança para cuidados especializados.

Os pais devem procurar ajuda sempre que se sentirem preocupados, com dúvidas ou angustiados em relação a algum comportamento do seu filho, independentemente de este corresponder a um mal-estar ou a um sinal mais patológico. Pais angustiados são pais ansiosos e isso, por si só, vai interferir na relação com a criança de forma importante.

Estar atento a mudanças no humor, no comportamento, nas rotinas dos filhos e procurar ajuda atempada junto de um profissional de saúde, sem se invadir por sentimentos de incompetência, vergonha ou medo, são a rampa de lançamento para uma vida adulta com saúde mental. E lembrem-se: não há saúde física sem saúde mental.

Sara Melo, pedopsiquiatra no Centro da Criança e do Adolescente do Hospital CUF Porto

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