A Racialização do Homo Sapiens Sapiens

A ciência, nomeadamente a genética, já o demonstrou sem margem para dúvidas: não existem raças humanas, apenas existe uma raça o Homo Sapiens Sapiens, a que todos pertencemos. A ciência demonstrou também que sempre que se pretendem criar artificialmente grupos humanos com base em qualquer característica física, por exemplo cor da pele, cor dos olhos, formato do crânio, etc., a variedade dentro de cada grupo é tão grande que a característica eleita para criar o grupo se mostra inoperacional. Ficou assim firmemente estabelecido pela ciência que não existem raças biológicas.

Este facto, contudo, não apaga o racismo que não é um fenómeno biológico mas um fenómeno social, sistémico, estrutural em algumas sociedades.

Para que o racismo possa atuar a sociedade atribui raças a pessoas que as não têm. A este processo chama-se racialização. Diferentes sociedades usam diferentes critérios para racializar os indivíduos.

Uma amiga minha brasileira contou-me em tempos que no Brasil era considerada parda, i.e., mestiça, mas que quando foi estudar para os Estados Unidos passou a Negra e, anos mais tarde, a viver em Portugal é vista como branca. A mesma pessoa em três sociedades é racializada de três formas diferentes. Um bom exemplo de como é a sociedade e não as características pessoais de cada um que definem a forma como os indivíduos são racializados, isto é como lhes é socialmente atribuída uma raça.

Os próprios portugueses racializados como brancos no nosso país ao chegar a países situados mais a Norte na Europa, à Alemanha, aos países escandinavos, e mesmo ao Reino Unido ou aos países de Leste, cedo verificam que são racializados com escuros, negros, árabes, etc., mas nunca como brancos.

Uma vez atribuída socialmente uma raça a cada pessoa, esta serve para a discriminação, a segregação, a perseguição, o abuso e a exploração. Como os nossos emigrantes bem sabem.

Por isso é necessário ser antirracista, isto é combater pela igualdade de todas as pessoas, por garantir que Negros, Ciganos e todos os racializados, tenham acesso aos mesmos direitos e oportunidades. Para que sejam reparados simbólica e materialmente os crimes, como a escravidão, como a discriminação, que sofreram no passado. Para que não sejam segregados na sociedade em que vivem e que é a sua.

Tal reparação passa seguramente por medidas que obriguem que essa igualdade aconteça, nomeadamente quotas para acesso ao ensino superior, quotas no acesso ao emprego, incluindo na função pública, medidas para que não sejam violentados e perseguidos pela Polícia, reformas do ensino para que seja reposta a verdade e a dignidade das pessoas, etc..

Negar as evidências, negar os crimes do passado, negar o racismo estrutural da sociedade é negar simultaneamente a História e a Ciência e colocar-se no campo eticamente insustentável da defesa do Mal. Daquele Mal que, erradamente, alguns pensaram enterrado primeiro em 1945 e depois em 1975, mas que persiste nas sociedades ocidentais.

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