A piada da "polarização"

Neymar só não foi ainda eleito o melhor jogador do mundo - que é, com léguas de avanço sobre Messi ou CR7 - por causa de uma conspiração capitalista cujo objetivo maior é prejudicar o futebol brasileiro.

É uma opinião meio delirante, não é?

Eis outra: 200 grupos económicos querem eliminar o dinheiro em papel para controlar, numa fonte central, as transações financeiras de toda a gente; para dissolver as células que poderiam resistir ao projeto, as famílias judaico-cristãs, entram em ação o marxismo cultural e a banalização de zoofilia, canibalismo, pedofilia.

Cómica também, certo?

Esta segunda é o resumo de uma teoria de Olavo de Carvalho, o guru do governo que se abateu sobre o Brasil.

A primeira é do Partido da Causa Operária (PCO).

A boa notícia é que, na última presidencial a que concorreu, em 2014, o candidato do PCO obteve 0,01% dos votos; a má é que na última presidencial a que concorreu, em 2018, o candidato olavo-bolsonarista foi eleito com quase 58 milhões de votos.

Ou seja, num momento em que se pretende classificar a previsível batalha eleitoral entre Lula da Silva e Bolsonaro em 2022 de "polarização", é bom sublinhar, com letras muito gordas, que o polo oposto do olavo-bolsonarismo é o PCO.

Em 2002, Lula, na ressaca de três derrotas presidenciais, aparou a barba, vestiu a gravata, redigiu a célebre "Carta ao Brasileiros", onde piscava o olho à Faria Lima (a Wall Street brasileira), convidou o empresário conservador José Alencar para seu vice, chamou o queridinho do mercado Antonio Palocci para a economia e ganhou as eleições.

Em oito anos no poder, de tão desesperadamente buscar consensos, alguns imorais (abraçando caciques que antes execrava), outros ilegais (pagando a deputados por votos, no esquema do Mensalão), o pragmatíssimo Lula viu debandarem, pela esquerda, milhares de militantes do PT, entre os quais os fundadores do PSOL, espécie de Bloco de Esquerda tropical, ou o hoje líder daquele PCO falado acima.

Incluiu 40 milhões de brasileiros na sociedade de consumo? Sim. Foi recordista de políticas assistencialistas, que garantiram a primeira moradia, o primeiro frigorífico, o primeiro televisor, o primeiro carro, a primeira entrada na universidade a incontáveis famílias? Novamente, sim. Mas sem prejuízo de saciar o apetite da Faria Lima, de transformar ricos em milionários e milionários em multimilionários. Saiu do Planalto com 80% de aprovação.

Em paralelo, por mais que no seu íntimo desejasse eternizar o PT no poder, ao jeito do PRI mexicano, jamais, como Bolsonaro hoje, ameaçou fechar Congresso e Supremo. E, enquanto o atual presidente mina polícia, justiça e órgãos de controle para salvar o primogénito, foram os governos petistas que introduziram os instrumentos usados (e abusados) pela Lava-Jato para combater a corrupção.

Pode-se não votar em Lula. Pode-se detestar Lula. Pode-se até querê-lo preso. Mas equipará-lo a Bolsonaro é demasiado ofensivo para ele e para a inteligência de quem o ousar fazer.

"Duelo de extremos"? Só se for nos parâmetros que os apoiantes do antigo sindicalista usam, com humor, nas redes sociais: um foi o melhor presidente da história do país; o outro é o pior.

Para concluir, mais uma opinião delirante: as redes sociais de Donald Trump foram bloqueadas porque ele "denunciou as eleições mais fraudulentas da história do país". Quem escreveu isto? Bolsonaristas? Não. O PCO. Os extremos atraem-se sempre.


Jornalista, correspondente em São Paulo

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG