A paixão de educar

Tive o raro privilégio de contar com o extraordinário conselho de Ana Maria Vieira de Almeida na reflexão sobre as políticas educativas, graças à amizade de Maria Barroso, em especial no tocante à concretização da educação pré-escolar e de infância. Fui testemunha da sua generosidade e da sua capacidade de olhar longe e largo, pondo uma escola para as pessoas no primeiro lugar do seu pensamento. Os textos que constituem o belíssimo livro Humanista, Cidadã, Pedagoga, antecedidos pela comovente e justa invocação de Vasco Vieira de Almeida, demonstram bem o exemplo essencial que Ana Maria nos deixou ("guia indiscutível, a força que nos une, o exemplo que nos inspira"). Lembro, como marca indelével, o texto publicado no DN em 7 de fevereiro de 1988, no qual dizia textualmente: "Os últimos anos têm visto nascer muitos programas que propõem o desenvolvimento das capacidades cognitivas básicas na esperança de se obter maior eficácia no processo de aprendizagem." A sua experiência e a sua sensibilidade obrigavam, porém, a um sobreaviso contra qualquer simplificação. "Essas tentativas esquecem ou ignoram que desde o início daquilo que chamamos "civilização ocidental" existe um lugar próprio para o fazer. Não nos enganemos, pois, procurando soluções tecnicistas para problemas que ultrapassam em muito o âmbito da técnica." Esta era a marca do seu humanismo - e por isso recordava a afirmação do pedagogo João dos Santos: "Desligar a educação da tradição conduzirá o homem para necessidades cada vez mais violentas e destruidoras." De facto, a aprendizagem deve encontrar a sua essência na exigência de pensar. E daí a filosofia não poder ausentar-se da escola, desde os mais precoces momentos da educação básica. Não se trataria de qualquer pretensiosismo, mas de compreender as pessoas, as coisas, a vida e o mundo, ler diretamente os textos e os autores, cabendo ao educador escolher os exemplos adequados a cada idade, encarando a criança como cidadão na medida das suas capacidades. Por isso, precisamos de "professores preparados e disponíveis para desempenhar o papel de moderadores", no ambiente de uma comunidade de reflexão. Urge estimular "o pensar por si próprio, o saber ouvir e respeitar as opiniões dos outros, a dar as razões para as suas opiniões, a analisar conceitos, utilizar critérios, desenvolver o rigor do raciocínio e a capacidade de reflexão, a conhecer-se a si próprio e ao mundo, a ter o prazer de pensar".

Isabel Soares refere Ana Maria como uma "pedagoga extraordinária e inimitável, com convicções firmes, mas sem dogmatismos, sempre aberta a tudo e a todos. (A Torre) foi um projeto pedagógico único e inovador que marcaria decisivamente o ensino dos anos cinzentos da ditadura e que abriria a porta a outras experiências do género". No mesmo sentido, no seu depoimento, Isabel Alçada fala-nos nas metodologias que a pedagoga desenvolveu, centradas nos princípios da cooperação e da educação para a cidadania, que provam o valor de uma orientação educativa inovadora, marcante para várias gerações de alunos e acolhida progressivamente por muitos docentes e formadores. Com sólida fundamentação, desde Celestin Freinet e John Dewey até João dos Santos, passando pela "República Escolar" de António Sérgio, das tertúlias da Travessa do Moinho de Vento, que tanto marcaram Ana Maria, a escola de cidadãos tem de ser vista como uma casa viva de liberdade e criatividade. E assim se entende como espaço aberto de rigor e autonomia, ilustração prática da etimologia grega, enquanto lugar do "ócio", como disponibilidade plena de espírito. A educação não comporta receitas, exige humanidade, proximidade, atenção, cuidado. Este testemunho vital ilustra essa exigência.

Administrador executivo da Fundação Calouste Gulbenkian

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