A nova guerra híbrida

Talvez deva aproximar-se a intervenção de Hitler, depois do incidente da prisão, com o que está a passar-se com a intervenção de Putin. Quando saiu da prisão, imediatamente Hitler procurou organizar o partido Nazi, inspirado pela valorização da força militar, com efeitos obviamente destruidores para a Europa. Depois de obter a liberdade dedicou-se claramente à organização do que chamaria o partido Nazi que, desde 1930, obteve excessivos votos, com representação parlamentar muito evidente a partir de 1932. De tal modo que, não faltando ao primeiro governo de Hitler limitações de participação, tal situação rapidamente se transformou no que muitos ainda consideravam uma minoria de força Nazi. Se bem recordo, houve um período de dois anos que lhe permitiram desenvolver o enfraquecimento da democracia, a concentração do poder nas suas mãos. Com o partido destinado a ser partido único, as conhecidas consequências foram os dos factos que se seguiram.

Quando em 1934 morreu Hindenburg, Hitler obteve as funções de Chanceler e Presidente da República, com o nome que se popularizou de Reich Führer. Deste modo obtinha para si o comando dos exércitos, o poder absoluto, caraterizado pela visão persecutória dos judeus e da nova problemática internacional. As democracias europeias iam sofrer as consequências da guerra mundial de 1939-45. O poder crescente do nazismo não levou sempre a reconhecer a tempo que a democracia estaria em perigo, designadamente pela dissolução da Câmara dos Deputados. Fica de experiência com consequências historicamente inesquecíveis, quando na própria orientação de Mussolini se fortaleceu o regime fascista que se reproduziu em outros países como em Espanha com o General Franco, na Grécia com o General Metaxás, na Polónia com Beck, e outros numerosos titulares dos poderes, incluindo Reis como Boris III da Bulgária, ou Carlos II da Roménia.

Esta evolução lembra a aproximação necessária da intervenção de Putin na desordem da própria ordem internacional, no exercício de ambições que não assumiu muito claramente quando tomou o poder vindo do KGB na Rússia. Quando se apresentou como agente significativo do governo russo, exerceu um processo de enganos das opiniões públicas tão consequentes e mais significativas, dos que historicamente levaram à tragédia de Hitler. Pareceu-me sempre enganadora, com intenção, a invocação que fez à chamada historicamente Terceira Roma, escrevendo em longo e minucioso ensaio sobre os valores religiosos. Nesse ensaio apelava à importância da mesma, exigiu respeito pelos Templos Ortodoxos. Praticava formalmente e publicamente a participação nos atos religiosos, e assim circulava crente da fé que caraterizava o passado russo da monarquia.

Pareceu-me sempre evidente que quando invocava o Império, com devoção de crente, reclamando o poder no Império, não era o fim da dinastia monárquica que tinha em vista. Aquilo que foi sempre evidente, para os frequentes observadores foi não assumir logo a evidência que a ambição de Putin era o passado histórico do Império, e não apenas o que estava em vigor. É por isso que a sua autenticidade apenas se tornou visível quando assistimos à agressão da Ucrânia, e não omitiu a evidência da intervenção que hoje conta com a liquidação de homens, mulheres e crianças, a destruição ilimitada das instalações de qualquer natureza, e a retenção de produção cerealífera com impacto crescente no aumento da fome e pobreza a nível global, o que hoje parece tornar claro que a sua formação intelectual e política esqueceu as atitudes enganadoras do passado para ser o mais responsável governante no que respeita à desordem mundial, ao crescimento dos problemas económicos e financeiros, à total incapacidade de aceitar que era titular de qualquer humanismo, e que sobretudo afeta a eficácia da ONU, a utilidade do Conselho de Segurança, a eficácia do Tribunal Penal Internacional, mas sobretudo torna impossível a esperança de se conseguir a unidade do género humano.

A mudança da política implica o recurso a violências que são reprovadas pelo direito internacional, pelo Tribunal Penal Internacional, pelo humanismo a que procuramos recorrer, para enfrentar as dificuldades globais, que até as formações religiosas seculares consideram incompatíveis com os deveres da humanidade. Os combates em exercício é que lembram a crítica, atenta, aos exemplos deixados pela experiência nazi.

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