A Nação dispersa

Sem ignorar que o processo criador das Nações teve a sua mais racional origem no facto de ser o Estado que cria a Nação e não esta que cria o Estado, perceção de Lord Acton (The History of Freedom and Other Essays, London, 1907), foi um processo aqui desenvolvido sobretudo pelas decisões de D. Dinis, incluindo a criação da Universidade de Coimbra, a floresta para reforçar a Marinha, a capacidade militar extraordinária do futuro já Condestável empenhado, tudo na solução da crise da Primeira Dinastia. O novo Rei, que foi D. João I, foi eleito pela vontade do povo, cuja defesa foi vitoriosa. Muitos séculos depois o são nacionalismo respondeu à ambição de Napoleão, com projeto inesperado para dominar a Europa. As inquietações causadas pela herança humana dos projetos napoleónicos que não venceram o crescimento da identidade dos nacionalismos, e assim a realidade de "notícias sobre Napoleão" não pode esquecer que o valor defensivo do nacionalismo acompanhou o "amor à Nação e ao seu triunfo", com acrescentamentos como "eterno patriotismo", e por vezes "racismo ideológico".

Tendo Napoleão mandado invadir três vezes Portugal, teve o desgosto da incapacidade dos seus exércitos, destacando-se sobretudo a correção que terá feito em relação à derrota do seu Marechal Massena, conhecido como o "filho querido da vitória". O Marechal terá respondido que as observações de Vossa Majestade são rigorosas para "os combates entre exércitos, mas ali a luta era com o povo".

É interessante lembrar a histórica partida de D. João VI, arrastando a sua mãe para o Brasil, confiando no sentido mais proveitoso da proposta alternativa inglesa. Tendo por seguro que a identidade portuguesa era uma das mais antigas e segura relação entre a Nação e o Estado, assumiu lembrar a nacional independência, ainda ferida de 1580 a 1640, uma decisão nacional que é lembrada e celebrada pela Sociedade Histórica da Independência de Portugal, que não esqueceu o desastre de Alcácer-Quibir e a morte de D. Sebastião. Mas outra forte ligação à Nação-Pátria é que não se escolhe o país em que se nasce, mas que decidir ficar é um ato voluntário de amor. Uma decisão que não se toma a benefício de inventário, do passado, toma-se com esperança a benefício do futuro da maneira portuguesa de estar no mundo.

A relação de Portugal com as comunidades portuguesas que existem no estrangeiro, teve sempre de ser uma dinamizadora de Portugal no mundo, reconhecendo os laços de proteção, de afeto, de reuniões nacionais, nesta terra pátria. A Sociedade de Geografia de Lisboa, em 8 de dezembro 1964, na Sala de Portugal, procedeu à abertura do 1.º Congresso das Comunidades Portuguesas, com uma participação surpreendente; conseguindo a presença de vários Estados em que se encontravam as migrações portuguesas, lembrando a inviolável origem.

Lembro hoje a juventude do futuro Catedrático da Faculdade de Direito de São Paulo, e também portugueses residentes responsáveis pela comunidade de portugueses no Rio de Janeiro, o generoso Dr. Paulo Brás, e o permanentemente ativo conselheiro António Simões Celestino da mesma comunidade do Rio de Janeiro. Em Guimarães, no dia 17 de dezembro de 1964, foram assinados os Estatutos da União das Comunidades de Cultura Portuguesa. Em 14 de dezembro de 1967, reuniu-se novamente o importante Congresso. O histórico Congresso realizou-se a bordo do Paquete Infante D. Henrique, que na Beira prestou homenagem ao falecido D. Sebastião de Resende, que vira antes já como "as velas do altar que dão luz e vão morrendo". Como última palavra de conselho, ouvi-lhe o recado no Hospital do Ultramar de Lisboa, decidido a ir morrer na Beira: "vai tudo ser difícil - não desista".

As comunidades de emigrantes não desistem. Mas o fim do colonialismo, depois da guerra do Ultramar, não impediu que a Nação dispersa não encontrasse acolhimento de regresso, sempre acompanhado de sofrimento pela perda da vida passada mas com corajosas intervenções na terra de origem. A Nação dispersa é uma resposta às exigências que não fazem dela uma Nação múltipla, como os encontros das Comunidades o demonstraram. Mas além da Nação fixada na Pátria e a Nação dispersa, é notável, mereceu ser valorizado, o facto de se terem unido povos independentes, falando a língua portuguesa.

Todos estão unidos pela afinidade da língua, todos são marítimos, todos merecem a intervenção, cooperação, e solidariedade, com povos de qualidade, a que a língua não dispensa identidades específicas. Foi boa ideia a reconstrução do Museu da Língua em S. Paulo, é excelente que estejam a construir um em Bragança. Os milhares de estudantes africanos são a prova. E talvez Agostinho da Silva neste período não pode ser esquecido.

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