A recente efeméride dos 50 anos do lançamento de Taxi Driver, de Martin Scorsese, fez-me revisitar o contexto paradoxal, algo irónico, da sua consagração. Consagração imediata, entenda-se, já que arrebatou a Palma de Ouro de Cannes. O certo é que nos Óscares referentes à produção de 1976 (atribuídos a 28 de março de1977), Taxi Driver, nomeado em quatro categorias, incluindo melhor filme, não teve qualquer distinção — foi Rocky, que transformou Sylvester Stallone numa estrela global, a receber o Óscar de Melhor Filme.Mesmo considerando Taxi Driver um filme superior, nada me move contra o heroísmo naïf (clássico, quero eu dizer) dessa primeira aventura do pugilista Rocky Balboa. Não se trata, portanto, de ceder ao primarismo ideológico dos resultados “justos” ou “injustos”. Acontece que, no universo cinematográfico dos EUA, 1976 foi um ano riquíssimo. Bastará citar os outros candidatos ao Óscar de Melhor Filme para o confirmar. A saber: Os Homens do Presidente, de Alan J. Pakula, notável desmontagem do escândalo Watergate; Caminho da Glória, de Hal Ashby, pedagógica evocação biográfica de Woody Guthrie; e Network, de Sidney Lumet, uma visão clínica e contundente do populismo televisivo — entre nós estreou-se como Escândalo na TV..O argumento do filme de Lumet foi escrito pelo grande Paddy Chayefsky (1923-1981), cuja visão implacável das imposturas que o espaço televisivo pode favorecer é indissociável da sua multifacetada experiência em... televisão. Aliás, obteve um primeiro Óscar graças ao argumento de Marty (1955), melodrama tradicionalmente citado como exemplo da contaminação dos modelos clássicos de Hollywood pela linguagem dos telefilmes (numa altura em que o sistema de produção de telefilmes possuía uma vitalidade que há muito se perdeu). Voltou a ganhar um Óscar com o argumento de O Hospital (1971), arrebatando a sua terceira e última estatueta dourada com Network.As peripécias narradas em Network são ricas e contrastadas, pelo que evito qualquer tentativa de as resumir. Direi apenas que, simbolicamente ou não, se trata de uma história de vida e morte. No seu centro está o apresentador de um espaço de informação, Howard Beale (interpretado por Peter Finch, consagrado com um Óscar póstumo), despedido devido à queda de audiências do seu programa. Ao dar conta da notícia aos espectadores, anuncia que irá suicidar-se em direto na sua derradeira emissão — as suas aparições registam uma espetacular subida de audiências e os patrões do seu canal querem que ele passe a apresentar um programa (ainda mais) “polémico”...Seria tentador ver no despedimento de Howard Beale uma premonição do que está a acontecer com Stephen Colbert, despedido da CBS, devendo encerrar o seu The Late Show no próximo mês de maio — ao fim de 33 anos de emissão e enorme popularidade, a CBS vai mesmo acabar com The Late Show (tudo com o aplauso muito explícito de Donald Trump). Seja como for, a história pode ser feita de ecos mais ou menos lógicos, ou apenas sugestivos, mas os contextos não se repetem..O trabalho de Chayefsky e Lumet transporta uma lição exemplar sobre a noção de verdade televisiva, agora substituída pela discussão pueril da verdade como uma entidade sempre evidente — e sempre mensurável. Observe-se o ridículo dos foras de jogo futebolísticos por meia dúzia de centímetros e reflita-se um pouco sobre o efeito, de uma só vez normativo e determinista, que tal aparato instala na perceção corrente das imagens.Se o cinema quase desapareceu dos horários nobres, isso parece decorrer do receio das formas de sageza — prudência intelectual, tempo de reflexão e ambiguidade cognitiva — que um filme pode envolver. Entretanto, se o leitor quiser ver ou rever Network, convém ter em conta que algumas plataformas confundem os mercados português e brasileiro: encontra-o na Prime Video com o título Rede de Intrigas. Jornalista