A Justiça na campanha das presidenciais

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A posição de António José Seguro sobre a Justiça pode ter sido um dos primeiros erros que cometeu no decorrer desta campanha das presidenciais e, por isso mesmo, merece análise redobrada.

O Diário de Notícias dá conta das preocupações do candidato apoiado pelo PS quanto ao (não-cumprimento) do segredo de Justiça e quanto à proliferação dos megaprocessos judiciais, muitos deles ainda a correr nos tribunais.

À primeira vista, parecem duas questões que não merecem grande contestação. Os portugueses têm lido manchetes, assistido a inúmeras buscas e, em casos extremos, até mesmo a detenções em que os principais protagonistas são meros suspeitos de um crime.

Ora, a presunção da inocência é uma das pedras basilares de um Estado de Direito. E a garantia de que uma investigação criminal é mantida secreta até à notificação de acusação é um dos pilares de um processo judicial considerado justo.

Em Portugal, a “condenação” em praça pública, com fugas de informação seletivas, transformou-se numa espécie de desporto nacional. Muitas dessas fogueiras inquisitórias foram ateadas aos pés de figuras políticas - deputados, ministros, primeiros-ministros e responsáveis partidários. Alguns vieram a ser acusados e responderam (ou estão a responder) por isso em tribunal. Muitos outros viram estes casos arquivados ou artificialmente prolongados, pelo tempo suficiente para ter o impacto desejado. Seja como for, o ponto não é se havia razão ou não para os investigar, mas sim a divulgação prematura e ilegítima de uma investigação que deveria ser mantida secreta.

"A garantia de que uma investigação criminal é mantida secreta até à notificação de acusação é um dos pilares de  um processo judicial considerado justo."
"A garantia de que uma investigação criminal é mantida secreta até à notificação de acusação é um dos pilares de um processo judicial considerado justo."Arquivo

A outra questão de António José Seguro é sobre os megaprocessos que se prolongam anos até um de três cenários: a prescrição de vários ou todos os crimes que constam na acusação; ao arquivamento ou, mais raramente, à sua resolução. Uma parte da sociedade vê um inocente a ser desproporcionalmente penalizado pela duração do processo e outra vê um culpado a não responder pelos crimes de que é acusado.

São duas preocupações justas de António José Seguro.

Mas ambas estas questões podem constituir um problema em plena campanha. Tocar nelas nesta altura, e acatando sugestões do PS, recordam os portugueses dos casos de justiça que envolvem antigos responsáveis do PS (José Sócrates, ex-ministros socialistas como Armando Vara ou Manuel Pinho, ou até o caso da Operação Influencer, dos Data Centers de Sines, para referir apenas três). Muitos dos intervenientes nestes casos, como muitos outros ligados ao PSD, foram ruidosos a atacar o sistema judicial, mais do que uma vez, precisamente nestes dois pontos.

É tudo o que André Ventura precisa - por menos do que isto já o fez… - para acusar, uma vez mais, António José Seguro de ser “a voz” dos partidos do “sistema”, eivados “de corruptos” e “compadrios”. De querer ir para Belém para tentar influenciar os processos judiciais que tanto têm afetado os dois partidos. Esse argumento não é garantia nenhuma de êxito para André Ventura. Quem acredita nisto já está com o presidente do Chega.

Uma coisa é dizer que, numa campanha defensiva, “dar este flanco” de Seguro pode ter sido um dos seus primeiros erros, outra é acreditar que isto lhe pode custar votos. Não acredito nisso.

Seguro corre contra André Ventura, um político que queria aprovar uma lei que permitisse o confisco de bens ligados a suspeitas de corrupção, o arresto de património ainda antes da conclusão do processo judicial. Também já defendeu limitar o direito de recurso nos processos judiciais ou abrir “estados de exceção” para “dar poder extraordinário” às autoridades policiais.

É entre estas duas visões sobre o sistema judicial e sobre a separação de poderes que os portugueses terão de escolher no dia 8.

Diretor-adjunto do Diário de Notícias

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