A guerra das paixões

Há muitos anos, numa biblioteca da Berlim ainda dividida, perdi a pouca inocência que ainda me restava acerca da eventual superior capacidade que os intelectuais teriam - em comparação com a maioria esmagadora das pessoas que não são pagas para pensar criticamente - de, perante uma situação extrema, manter a capacidade de análise para a qual foram educados e treinados. Consultando revistas filosóficas, alemãs e francesas, publicadas na I Guerra Mundial, surpreendi algumas antigas e futuras vedetas filosóficas, das duas margens do Reno, a juntarem as suas penas agressivas ao esforço bélico dos seus exércitos, chegando mesmo a dar crédito à propaganda mais descarada que, como estamos outra vez a recordar com a guerra na Ucrânia, consegue ser uma arma de destruição maciça, nesse campo de batalha onde se ganha e perde a adesão dos espíritos.

A invasão russa da Ucrânia provocou uma tempestade emocional nalguns dos nossos comentadores da imprensa e do audiovisual, que está a atingir os limites da decência. Mesmo sem fazer nenhum esforço de pesquisa para tal orientado, já surpreendi estrategistas instantâneos a corrigirem militares profissionais, por escritos ou entrevistas televisivas, ou a censurarem cronistas como Miguel Sousa Tavares, ou académicos como Boaventura Sousa Santos, pelo simples facto de estes tentarem oferecer aos seus espectadores e leitores uma visão mais alargada e historicamente contextualizada da complexidade de causas e problemas que nos conduziram à actual guerra. Repare-se que nenhum dos visados deixou de condenar o ataque de Putin, e de sentir solidariedade com as vítimas da ofensiva russa. Para aqueles plumitivos censores, traindo esse obscuro conformismo que também mora na nossa tradição cultural, tudo o que não se acolhe na sua grelha bicolor e binária, que arruma os contendores em demónios e anjos, implica uma cedência indesculpável ao "putinismo"...

Infelizmente, a delicadeza e gravidade da situação militar e política dispensa o daltonismo moralista destes vigilantes da opinião alheia. Para distinguir o essencial do acessório, importa não esquecer que estamos a viver dias muito semelhantes àqueles que, entre 28 de Junho e 4 de Agosto 1914, assistiram a sucessivos erros de cálculo que desaguaram no massacre da I Guerra Mundial. A paragem da ofensiva russa, mostrando Putin mais como medíocre jogador de poker do que xadrezista exímio, só poderia ser invertida com uma escalada russa nas forças envolvidas e baixas sofridas, comportando um preço político incalculável, tanto na frente externa como na doméstica. A Ucrânia pode resistir longamente, mas só poderia tomar a iniciativa com a aceitação do repetido pedido de Zelensky para a NATO fechar o espaço aéreo da Ucrânia. Esse passo, contudo, arriscaria generalizar o conflito, rumo à escalada nuclear. A prioridade é baixar a violência e não acicatá-la. O que une a Rússia e a Ucrânia é a urgência de escolher entre um processo negocial, em que ambas têm de fazer compromissos e cedências mútuas para calar as armas, ou mergulhar numa espiral de violência que poderá escorregar para uma guerra global. É do interesse geral, incluindo ético e humanitário, encorajar Moscovo e Kiev a seguirem pelo primeiro caminho. Dar tempo à diplomacia para restaurar a paz. Exactamente o oposto de um aventureirismo que poderia fazer alastrar o incêndio bélico a potencialmente toda a Europa.

Professor universitário

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