A França e a miragem do centro político

As eleições em França vieram mostrar na sua crueza como a ideia de um centro político se encontra hoje esvaziada e enfrentada com a realidade. Foi fácil imaginar esse centro quando na Europa dominava a ideia de raiz keynesiana, que Dahrendorf crismou de "pacto social democrata": a ideia de, num quadro de economia liberal, construir um Estado de Bem Estar que permitisse controlar as desigualdades mais gritantes e garantir mínimos de solidariedade social enquanto, num sistema de progressividade fiscal, se assegurava que a distribuição dos rendimentos fosse pelo menos suportável por todos. Esse mundo morreu e deixou diante de nós a realidade essencial que as políticas neo liberais vieram pôr em evidência: a desconstrução radical desse modelo, por forma a assegurar a maximização dos lucros financeiros e a diminuição dos rendimentos do trabalho e das garantias sociais.

Que este projeto, na sua crueza, conduza à sua rejeição pelos eleitorados não nos pode surpreender. Que uma extrema direita com inteligência política para entender o descontentamento social viesse capitalizar politicamente com a situação era natural e previsível (felizmente para nós, ao contrário da francesa, a nossa extrema direita vive para problemas tão urgentes para os cidadãos como o confinamento dos ciganos e a castração dos pedófilos...). A surpresa que a França nos trouxe foi o renascer de uma esquerda que, com todas as suas divisões e limitações, se propõe enfrentar a ameaça da extrema direita, competindo com ela na atenção às preocupações dos menos favorecidos.
Macron pretendeu reformar os equilíbrios da sociedade francesa no sentido de limitar os direitos e as vantagens sociais, na linha da política dominante na Europa: mas, por inabilidade política ou arrogância, a primeira medida que tomou foi aliviar fiscalmente os mais ricos, através da revogação de um imposto sobre as grandes fortunas que nenhum governo de direita anterior se tinha atrevido a anular. Pedir sacrifícios a uma maioria ao mesmo tempo que se restauram os privilégios de uma minoria é uma assunção cândida da natureza de classe de uma política, que não pode deixar de constituir um incitamento à revolta.

O projeto de Macron era, ao esvaziar as forças políticas tradicionais da esquerda e da direita, construir uma nova bipolarização entre o seu programa de restrições do Estado social e o programa da extrema direita que, ao assumir um discurso de apoio aos mais desfavorecidos não deixava por isso de reafirmar as suas ideias xenófobas e racistas. O caminho para esta bipolarização parecia inevitável e, para alguns, ia no sentido da História.

Pense-se o que se pensar de Mélenchon e da aliança que se constituiu à sua volta, não podemos deixar de reconhecer que a sua aparição veio pôr em xeque essa bipolarização artificial e voltou a colocar a esquerda face à problemática social que a extrema direita estava a capitalizar perigosamente em seu favor. Não que essa ameaça da extrema direita tenha desaparecido, pelo contrário está até mais viva e consolidada. Mas que tenha voltado a existir uma esquerda em França permite-nos pensar numa limitação dessa força política, que a direita francesa não foi capaz de fazer.

O problema é sempre o mesmo: face à situação que vivemos na Europa e no mundo, o socialismo democrático não pode desistir de ser socialista, sob pena de outras forças anti democráticas virem ocupar o seu espaço político e destruir as nossas democracias. Socialismo ou barbárie: nunca foi tão premente esta injunção.


Diplomata e escritor

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