A festa do milhão e a falta de visão

Com a entrada de Portugal na União Europeia, na altura CEE, a esperança foi muita. Passaríamos a contar com o apoio de países economicamente robustos. Portugal estava social e economicamente fragilizado, as reformas eram necessárias e desejadas, o dinheiro era útil.

Muito aconteceu. Grande parte da economia foi desestatizada, com essa abertura muitas empresas cresceram, quer no mercado interno quer no externo. Vieram grandes investimentos como a AutoEuropa. Índices sociais preocupantes, como pobreza e analfabetismo, foram reduzidos. Com os milhões vindos da Europa muito se fez, desde a quase erradicação de barracas à construção de autoestradas que ligaram populações com benefícios de mobilidade, sociais e económicos.

Mas isto não bastou. Dos muitos milhões que chegaram nem sempre a sua utilização foi a mais correta. Houve fraudes e crimes, como fomos sabendo ao longo de anos. Muitas reformas necessárias nunca viram a luz do dia e outras demoraram anos, limitando a nossa competitividade. Tiraram-se pessoas de barracas, mas estigmatizaram-se populações, colocando muitos cidadãos na dependência absoluta de subsídios. As autoestradas tornaram-se vias abertas para a desertificação de territórios.

Não faltaram milhões, mas faltou visão.

E se dúvidas houvesse sobre o muito que faltou e falhou, teremos sempre o dia 6 de abril de 2011 para nos recordar o total fracasso da gestão política no nosso país. Esse foi o dia em que ocorreu o pedido de socorro à troika. Foi a terceira vez, na história da democracia, em que Portugal pediu ajuda externa. Três intervenções do FMI em terras lusas.

Passaram dez anos, algumas reformas impostas, uma geringonça com várias reversões (sinónimo de andar para trás) e uma inesperada pandemia. E eis novamente muitos milhões prestes a chegar.

Chamem-lhe bazuca, Next Generation ou Fundos de Coesão, enquadrem-nos num Plano de Recuperação e Resiliência ou qualquer outra coisa, o que não pode voltar a acontecer é ser mais uma oportunidade perdida. Uma vez mais não faltarão milhões, mas desta vez não pode faltar visão.

Depois do Plano Costa Silva e de uma primeira versão do PRR, foi preciso esperar pela versão final negociada em Bruxelas, escondida semanas a fio dos portugueses, para ficar notório que mais do que recuperação teremos preocupação.

A maior parte dos milhões fica no Estado. Portanto, ao invés de virar a atual lógica e confiar na criatividade e no espírito de iniciativa da sociedade civil, mantém-se a condenação a muitas empresas em ir para a fila, dependentes da boa vontade do burocrata de turno que decidirá para que setores vão as verbas (a velha lógica da economia planificada), para que empresas (irão resistir à tentação do critério à medida dos amigos?) e em que condições (veremos como funcionará o prometido portal da transparência).

Infelizmente, da parte do governo, não vemos soluções para recuperação e resiliência. No final, uma vez mais, sobrará a perseverança dos portugueses. E terá sido outra festa do milhão, mas sem qualquer visão. Estaremos para sempre condenados a isto?

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