A evolução da ONU

Depois da guerra de 1914-1918, a evolução da Sociedade das Nações, com um estatuto dissolvente dos impérios europeus, por intervenção dos EUA que não assinaram o estatuto, foi destinada ao total apagamento do projeto pela guerra mundial de 1939-1945. O estatuto da nova organização, a ONU, já não teve em vista a redefinição da estrutura das políticas europeias, antes alargou o projeto ao globo, com a decisão de terminar com o regime colonial. De novo a raiz da estrutura foi ocidental, com domínio decisivo das grandes potências vencedoras da guerra, mas com um princípio aristocratizante da hierarquia pela convenção do direito de veto no Conselho de Segurança, concedido às consideradas grandes potências (EUA, Inglaterra, França, Rússia, China), com o erro de anos a impor a presença de Taiwan, onde se refugiara o exército nacionalista vencido, o que desde logo fez correr a previsão de que, designadamente, os EUA teriam de enfrentar a China num futuro incerto, previsão que hoje está verificada, não apenas na área económica, mas na área de poder marítimo que despertou os desafios.

No que toca à ONU, este é parte do desafio global que a atingiu, porque se a China é um dos importantes agentes da aquisição de um lugar no grupo das potências concorrentes à superioridade global, que levou à circulação mundial da expressão de Francis Delattre, representante da França na ONU, salientando o unisolationisme american, regresso da Rússia, importância da China, e enfraquecimento dos países europeus, que ocidentalizaram o mundo, entre os quais a França se considerou a luz desse movimento. Se esta competição diminui a intervenção da ONU, parece de igual relevo, especialmente no que diz respeito ao Médio Oriente, o que Anne-Cécile Robert, no Monde Diplomatique, considera, desde 1945: que começou a evolução da ONU. Mas do próprio vogal dos fundadores se indica que quando os EUA, em dezembro de 2018, tiveram de nomear sucessor para a vaga aberta pelo seu representante diplomático, levou nove meses o que, entendeu-se, foi uma demonstração, do então presidente, do desdém pela organização.

Não foi simplesmente política total, exercitada mais tarde em muitos domínios por Trump, que mudou, mas supomos que foi lembrança o sinistro atentado pelo qual, na representação da ONU em Bagdad, o seu diplomata Sérgio Vieira de Mello, em 18 de agosto de 2003, morreu numa explosão, e alarmou o ambiente internacional. Mas isso não impede que, usando uma expressão do embaixador La Sablière, o ambiente, como no Conselho de Segurança, seja ainda considerado como um templo, onde é livre, e inocente no julgamento, qualquer intervenção. Todavia ficou célebre, partindo da surpresa, a famosa intervenção do secretário de Estado americano Colin Powell, quando exibiu uma imagem do ridículo veículo dito transportador de um químico de explosão atómica, fabricado pela capacidade do futuramente executado Saddam Hussein.

Em resumo, multiplicam-se os conflitos que levam a avaliar, com preocupação, os 75 anos feitos pela ONU no findo inquietante ano de 2020. Participando na avaliação do estado da ONU à mercê das grandes potências, o L"État du Monde de 2021 sublinha oportunamente, e sobretudo, que "a ONU tem de desempenhar uma ação no foro internacional permitindo enfrentar as crises, denunciar as tensões, reafirmar o firme apoio do direito internacional". Para conseguir isto, e não apenas intervenções verbais humanitárias, também não dispensáveis, necessitaria de não esquecer assumir a prática, no Conselho de Segurança, do princípio orientador enunciado por Dean Acheson, secretário de Estado americano, em 1950 (guerra da Coreia): "Unidos para a manutenção da paz." É uma regra que não pode imputar-se à finda presidência dos EUA, início do novo ano, e parece mais realista reclamar pelo regresso à autenticidade do Conselho de Segurança, e da ONU, designadamente tomada nota de que a China declarará querer corrigir a situação inquietante e presente de Taiwan, tendo em vista o que levou anos a passar-se. Talvez seja mais urgente que, não apenas pela pandemia, mas pela declaração esperada da China, e evolução da desordem mundial, nasça alguma responsabilidade global que imponha o esquecido respeito pela cooperação global da ONU, que parece sofrer a arrogância, sem a sabedoria, mais preciosa.

A situação mundial é de tal modo ameaçadora, crescente pela situação pandémica global, que não parece aceitável acrescentar à dimensão da perda mundializada pelo género humano, com difícil defesa, a ignorância da circunstância que acrescenta ao desastre global as consequências da improvável competição pelo poder entre algumas das atingidas potências, precariamente abaladas pelo erro de considerarem que o ataque a todas as espécies do género humano não atinge apenas a efetividade dos seus passados como potências de poder, não apenas económico e militar, mas até científico. A dimensão do equívoco provoca excessivamente o risco dos seres vivos. A voz da ONU merece mais atenção.

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