A escola pública não é o que vemos na televisão

Ao longo deste ano letivo de 2022/2023 e, de forma mais acentuada, desde o início de 2023, o país tem assistido, através das televisões, rádios, jornais e redes sociais, a um longo processo de reivindicação por parte dos professores e demais recursos humanos das escolas públicas, que tem chamado a atenção de todos.

Para as famílias que têm filhos a frequentar a Educação Pré-Escolar ou o Ensino Básico e Secundário em escolas públicas, que são cerca de 55% e 90%, respetivamente, do total nacional (Estado da Educação 2021, Conselho Nacional da Educação), levanta-se ou volta à memória uma importante preocupação: "Que ambiente se vive nas escolas públicas e em cada sala de aula por estes dias?" Dito de outra forma: "Será o ambiente da escola dos meus filhos seguro e saudável?"

A preocupação é legítima e creio que se estende a todos os cidadãos que acompanham a atualidade. "O tom das comunicações, manifestações e comportamentos individuais e de grupo que vemos nos meios de comunicação será aquele que prevalece nas escolas em Portugal e se transmite aos alunos que as frequentam?"

Trabalho em Educação há mais de 18 anos. Ao longo deste tempo, visitei dezenas e dezenas de escolas públicas e privadas em todo o país, seja no continente, seja nos Açores ou na Madeira. No continente, conheço muitas escolas das periferias urbanas de Lisboa e do Porto, mas também de concelhos interiores, como Campo Maior, Pampilhosa da Serra, Serpa ou Tondela.

Ao longo destes quase 20 anos, fui construindo uma imagem muito forte e positiva das escolas que, no essencial, creio que se mantém, sejam as públicas, sejam as privadas.

Em primeiro lugar, aos meus olhos, as escolas/agrupamentos são espaços de "acolhimento maternal" para todos. Em média, mais de 70% dos profissionais das escolas - professores e demais técnicos - são mulheres, atingindo 99% no caso da Educação Pré-Escolar (Estado da Educação 2021; Pordata).

Este acolhimento sente-se de várias formas: como somos recebidos à chegada - desde a portaria, até aos habituais "café e bolinhos caseiros", oferecidos em qualquer reunião; como vemos os alunos a ser tratados e a conviver com os professores e os assistentes operacionais, nas aulas e nos intervalos, numa relação que é saudável a maior parte das vezes; como somos convocados para participar em atividades das escolas, reuniões de trabalho, ou assistimos, pontualmente, a reuniões formais (Conselho Geral, Conselhos de Turma, Reuniões de autoavaliação das escolas, ...); como a escola se abre aos pais e, em geral, à comunidade, sem a devida reciprocidade em muitos casos; na vontade que temos de regressar quando nos despedimos, depois de uma manhã ou tarde bem passada numa escola.

Em segundo lugar, as escolas/agrupamentos são comunidades organizadas e focadas na aprendizagem dos seus alunos - de todos os seus alunos -, com processos de trabalho que procuram assegurar o sucesso e a continuidade pedagógica entre ciclos. Ao ruído ensurdecedor que prevalece nos intervalos segue-se o silêncio sagrado da escola durante os tempos letivos. E, se entramos numa sala de aula, pelos dados de questionários a alunos de que disponho, a regra é encontrarmos um ambiente tranquilo de lecionação ou mesmo, até, de avaliação, mas também de trabalho em grupos - aí sim, com algum burburinho, que pode chegar a agressividade pontual no caso dos alunos adolescentes, como é próprio destas idades. No final de cada ano letivo, os professores falam com orgulho dos resultados atingidos. No caso das escolas secundárias, os professores listam o número de alunos que entraram em Medicina, Engenharia ou outros cursos, com uma ponta de vaidade compreensível.

Em terceiro lugar, e cada vez mais, as escolas/agrupamentos promovem a inclusão de uma forma intencional e sistemática. A promoção da inclusão estende-se às famílias dos alunos, sobretudo no caso de serem de origem imigrante ou de minorias. As Artes são formas privilegiadas para este efeito, incluindo as semanas culturais, musicais ou gastronómicas, tão frequentes um pouco por todo o país. Desde 2018, podemos ver também um ensino ainda mais inclusivo, com a presença continuada de alunos especiais no seio das turmas, integrados de forma harmoniosa e natural.

Tudo isto e muito mais se vê e sente quando entramos numa escola/agrupamento. Sobretudo, quando entramos em muitas escolas e em diferentes pontos do país, verificando que parece haver uma só Escola, comum a todos os territórios e comunidades.

É esta Escola que acolhe, todos os dias, os filhos de Portugal e constrói o futuro da nação.

É esta Escola que "resiste", por estes dias, às dificuldades dos professores e assistentes operacionais e que "faz das tripas coração" para cumprir a sua nobre missão.

É esta Escola que não se vê na televisão, mas que deveria ser visitada pelos pais de Portugal, por todos os cidadãos. Porque é acolhedora, segura, educadora e inclusiva.

Diretor-geral da Associação EPIS - Empresários Pela Inclusão Social
Diretor-geral dos Recursos Humanos da Educação 2004-2007

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