A cultura na recuperação económica

É hoje lançado o relatório "A contribuição da cultura para o desenvolvimento económico na Ibero-América", iniciativa da OEI e da Comissão Económica para a América Latina e o Caribe (CEPAL). Este estudo analisa a importância da cultura e a sua contribuição direta para o desenvolvimento e a melhoria da produtividade. Trata-se do resultado de uma investigação que envolveu quase todos os países da região, incluindo Portugal, em que se apresentam e comparam dados atualizados sobre o setor cultural. Embora pensado antes da pandemia, a elaboração deste trabalho decorreu no período mais dramático e imprevisível da crise sanitária que não deixou imune nenhum setor de atividade. É, porém, reconhecido, que o setor cultural, a par do turismo, foi dos mais afetados, com encerramento de empresas, elevada perda de empregos, em muitos casos substituídos por trabalho informal em áreas muito diferentes.

E, contudo, durante o período mais crítico da pandemia, ficou bem demonstrado os seus (bons) efeitos no bem-estar e na resiliência de todos nós. Pudemos continuar a usufruir da cultura porque os seus profissionais - de forma transversal - revelaram uma enorme capacidade de inovação e até de expansão dos mercados, apostando nos benefícios dos meios digitais. Dou um exemplo. Em 2019, a Câmara Municipal de Setúbal acolheu, pela primeira vez, a Exib Música, um festival que promove a internacionalização da música ibero-americana independente e estabelece pontes entre criadores, programadores e outros profissionais. Na primeira edição, foram homenageados Zeca Afonso e Mercedes Sosa, com a participação de um total de 400 profissionais (entre artistas, programadores, jornalistas) que mobilizaram o público de Setúbal. Em 2020, o Festival foi inteiramente virtual, com a participação de 11 cidades, tendo alcançado um público superior a 52 mil pessoas . Só o primeiro espetáculo teve uma audiência de 18.600 pessoas em diversos países. Este ano, a Exib voltou à cidade (porque os encontros são insubstituíveis), mas manteve as transmissões por via digital.

As artes precisam de públicos e os públicos precisam das artes. Nada substitui o calor da presença, mas estes novos meios permitem formas complementares de intervenção que vieram para ficar. Recordemos também o esforço de museus e locais patrimoniais para manter as suas portas virtualmente abertas através da digitalização das coleções, seminários e atividades a distância, registando-se um aumento de 200% no acesso às suas plataformas já em abril de 2020 (Unesco e Banco Mundial, 2021).

Não podemos, contudo, ignorar o impacto muito negativo que a pandemia infligiu a um setor que estava em crescimento. O relatório da OEI e CEPAL apresenta indicadores que permitem tomar consciência do ponto em que o setor cultural ficou, antes das restrições, em termos de produção de riqueza, exportações e emprego qualificado. Esta quantificação - a que somos muito avessos - contraria o velho argumento da cultura como despesa e mostra os resultados de investir na recuperação de um setor que vale por si e contribui de forma significativa para o PIB nacional. Em 2018, o setor cultural e criativo português gerou 5,3 mil milhões de euros, correspondente a 3,6% de toda a riqueza gerada no país.

Ao contrário dos outros países da região, o tema das indústrias culturais e criativas é ainda pouco consensual entre nós. Embora a designação seja diversa na região - indústrias culturais, economia da cultura, economia criativa (em Portugal, setor criativo) -, os países ibero-americanos e, já agora, também a CPLP, acreditam cada vez mais que se trata de um setor prioritário. Tal como em outras áreas, mais do que recuperar o crescimento, há que dar um salto qualitativo e perceber o impacto que a arte e a cultura têm na construção de um futuro mais inclusivo, mais sustentável, mais humano.

Diretora em Portugal da Organização de Estados Ibero-americanos

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