A autonomia estratégica da Europa

Tianjin é uma cidade portuária, a pouco mais de uma centena de quilómetros a sudeste de Beijing. Quando as potências europeias estabeleceram concessões na China, desde meados do século XIX, esta foi uma das localidades escolhidas como porta de entrada, com a vantagem de estar perto da capital. Hoje, é uma zona metropolitana que abrange uma área maior que a do distrito de Beja - imaginemos todo o Baixo Alentejo urbanizado, uma paisagem de arranha-céus com mais de 15 milhões de habitantes. Em 2025, Tianjin deverá ter uma economia duas vezes e meia maior que a portuguesa.

O exemplo de Tianjin mostra como é importante ver o mundo com realismo. A China é um gigante imparável. Tem a seu favor a dimensão populacional, o centralismo autoritário do poder, a vontade política e o investimento maciço na ciência, na tecnologia e na aquisição de matérias-primas. Nesse contexto, que futuro pode ter Portugal, ou cada um de entre a maioria dos países europeus, na relação de forças mundial? Felizmente, existe a União Europeia. A integração produtiva e a conjugação de esforços políticos permitem aos Estados-membros ter algum peso nas relações económicas internacionais e no xadrez geopolítico. Se não houvesse mais nenhuma razão para justificar o aprofundamento da UE, esta, por si só, já seria suficiente.

É aqui que surge a questão da autonomia estratégica da Europa. Faz parte do ritual dos discursos agora em voga. Mas precisa de ser aprofundada e transformada num plano de ação. Pelo que abordo hoje três aspetos do tema, deixando para uma outra altura as dimensões da defesa e segurança.

Na presente década, o primeiro grande passo para a afirmação da Europa passa pelo reforço do euro como meio de pagamento internacional bem como divisa de reserva monetária. A moeda europeia é já a segunda mais utilizada nas transações globais, bem acima do yen japonês e do renminbi chinês, mas continua muito aquém do dólar americano. É essencial, para permitir a autonomia noutras áreas de soberania, que haja a vontade política de acelerar a utilização do euro nas relações económicas e financeiras com as mais diversas regiões do globo. Essa discussão tem de entrar na agenda dos líderes políticos europeus. Não se trata de um mero problema técnico ou de esperar pela dinâmica dos mercados. É uma prioridade estratégica.

A segunda linha de intervenção diz respeito à política externa. Presentemente, com exceção da problemática do clima, a posição da Europa perante as grandes questões é definida por duas caraterísticas negativas: a subordinação às conveniências dos Estados Unidos e a fragmentação, consequência dos interesses individuais dos Estados-membros da União. O Alto Representante para os Negócios Estrangeiros e a Política de Segurança da UE pouco mais representa do que ele próprio. O atual detentor do cargo, Josep Borrell, embora mais experiente que as duas titulares anteriores, não revela capacidade para fazer valer uma agenda proactiva e coesa. Não será assim que a UE terá uma voz mais interveniente na cena global. Este é outro assunto que clama por um novo tipo de acordo ao nível das lideranças políticas europeias.

A terceira linha de ação ficou mais evidente quando a pandemia pôs em evidência a importância da autossuficiência na produção de bens e serviços de ponta. As economias europeias têm de investir continuamente na inovação científica, tecnológica e digital, e na formação dos cidadãos. A Cimeira Social que teve lugar no Porto reconheceu a necessidade da aprendizagem ao longo da vida. Essa é a nova maneira de encarar a competitividade das nossas economias. Falta ainda determinar quais são os setores que devem ser considerados fundamentais, para além da saúde, da expansão da inteligência artificial, da segurança cibernética e da energia.

A autonomia estratégica não exclui a interdependência e a cooperação entre nós e os outros. E não pode ser só conversa. Exige ideias claras e políticas adequadas.

Conselheiro em segurança internacional. Ex-secretário-geral-adjunto da ONU

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