Desde 2019, mas em especial a partir do resultado das eleições legislativas de maio, que existe uma tentativa gigante para normalizar ou atenuar tudo aquilo que o Chega defende. Uma espécie de vontade maioritária no espaço público em nome do milhão e meio de eleitores alcançados por aquele partido. A ideia é que se passasse a desconsiderar muito do reflexo das ações e se avaliasse com candura aquilo que André Ventura dizia ou fazia. Conforme tive oportunidade de dizer no tempo devido, a vitória a 18 de maio foi do PSD, mas tratou-se dela como se o Chega tivesse conquistado, nesse dia, uma maioria absoluta à prova de tudo.A moderação que alguns preconizavam sem perceber a raiz e o sucesso maior do Chega nunca veio e, portanto, a suposta eficácia de Ventura passou a sobrepor-se ao conteúdo. O racismo tornou-se um pormenor. Os cartazes não gerariam o que acabaram por gerar. O descontentamento e o número de eleitores, eram uma justificação para tudo. A ausência de inteligência, densidade política e a cobardia intelectual, mascararam-se demasiadas vezes de mais-valia no espaço público. O silêncio em relação ao mais relevante, um prémio. Os “três Salazares”, não eram mais do que fait-divers, claro está. E por aí fora…Da conjuntura global com o crescimento destes partidos, ao financiamento da internacional a que pertence, até aos financiadores nacionais e passando pela influência que conquistou em vários setores, o Chega tornou-se parte integrante do sistema há algum tempo, mas alcançou toda esta nova alavancagem desde as legislativas de maio. É justo dizer que o atual Governo foi central nisto tudo. Na ânsia de vir a conquistar o eleitorado que tinha votado na extrema-direita, cedeu à agenda das narrativas falsas, das perceções, a algum do posicionamento radical, colocando completamente de lado o combate político e o que mais interessa no país.No entanto, as autárquicas foram o primeiro sinal da perda de algum fôlego para o Chega e as recentes presidenciais, apesar de serem um caso à parte, deixaram explanada toda a rejeição. Primeiro ao partido. Depois, à figura que certamente mais votos vale no mesmo. Beneficiando de uma fragmentação de candidatos da direita democrática, André Ventura passou à segunda volta, onde contou com uma trajetória disciplinada de Seguro, mas cuja campanha esteve longe de ser mobilizadora por si só (não faço parte dos salteadores do momento).Desde a ausência de posições na política externa a um desprezo pelo uso da palavra como motor primeiro da ação, ao trabalho dos deputados, até à interpretação de que um extremista como Ventura, que dispara lugares-comuns, falsidades, insultos, e não deixa ninguém falar, dispõe do dom da retórica. Seja como for, António José Seguro fez história, mereceu o voto por existir politicamente num tempo desafiante e por ser um democrata.Daqui regresso ao reflexo mais importante: a maioria dos portugueses não quer a normalização do partido de André Ventura e o Governo perdeu quase dois anos a acreditar no contrário. Junte-se isto aos muitos nos media que anseiam pelo dr. Passos Coelho para federalizar esse espaço, com o Chega incluído(!), e ficará assegurado que essa generalidade de portugueses poderá continuar a ter a direita que não pede.E a que não merece também, diga-se.