Havemos de ser felizes

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Longe vai 2025, ano em que Luís Montenegro, apesar da névoa moral que sobre si pairava, saiu reforçado nas urnas. Ano em que Pedro Nuno Santos, temerário, se entregou ao seppuku político que só os seus indefectíveis não conseguiam prever. Ano em que só a corrida ao poder local conseguiu refrear a fanfarronice de André Ventura, o novo líder da oposição. Ano em que o PS desistiu do pueril frentismo. Ano em que o PSD conseguiu voltar a saborear a vitória numas eleições autárquicas. Ano em que a IL não mexeu novamente os ponteiros. Ano em que o Livre pareceu existir. Ano em que todos os outros, e até alguns dos já referidos, quase caíram na real. Quase…

Tão massacrados pelo comboio de depressões que nos atingiram e molestados pelo carrossel de incúria que foram testemunhando, os portugueses certamente já esqueceram que, há pouco mais de dois meses, o seu brilhantismo e o seu esforço eram celebrados na capa da prestigiada The Economist. A nossa economia, escrevia a revista, era “doce como um pastel de nata” e todos, todos, todos, com o habitual provincianismo, quiseram reclamar um quinhão do mérito pela distinção.

Muito menos impacto tiveram, porém, as notícias domésticas do início de 2026. Aquelas que nos deram conta de que a economia portuguesa crescera, afinal, 1,9% no ano que findara. Abaixo, inclusivamente, da já tímida meta de 2% definida pelo Governo – e inferior até ao registado em 2024, ano em que também num ranking divulgado pela Economist Portugal ocupava um bem menos reluzente 16.º lugar.

Ao 50.º dia de 2026, aquele em que escrevo este artigo, todo o optimismo infantil e infantilizante com que até candidatos presidenciais se referiam a este Éden atlântico parece ter-se esfumado. Inexiste. Tomou um chá de sumiço. Hoje, o primeiro-ministro já admite “pequenos défices” justificados pelo PTRR e o secretário-geral do PS reivindica a apresentação de um Orçamento do Estado rectificativo, algo que os Governos de António Costa, mesmo martelando os números do investimento público, só fizeram a pretexto da pandemia de covid-19 (e chamando-lhe suplementar, pois rectificativos apresentam os Executivos que se enganam).

Enquanto isso, deslumbrado - e, paradoxalmente, abananado - pelo resultado das presidenciais, Ventura vai exigindo mais e mais e mais, une-se à esquerda parlamentar para viabilizar o que lhe parecer eleitoralmente mais compensador e seduz os descamisados pátrios com a mesma sofisticação com que o fazia a discutir foras-de-jogo e cartões vermelhos.

Ao longo dos próximos meses (ou mesmo anos), brotarão do Terreiro do Paço e, de forma menos generosa, também de Bruxelas avultadas somas para atender às mil e uma necessidades da população, que se juntarão à permanente súplica das corporações e de um Estado que não se reforma por decreto, nem de maneira nenhuma. Isto tudo, é evidente, conjugado com o regresso a crescimentos anémicos, incapazes de acomodar salários competitivos e um Estado Social sustentável.

Dizia eu, no início, que longe vai 2025, ano em que, após tantas dificuldades, incontáveis eleições, geometrias parlamentares excêntricas e o fim de ciclo de um Presidente que não exerceu grande pedagogia para fomentar a nossa maturidade colectiva, parecia que tínhamos caído na real. Parecia. Não caímos. É-nos mais querida a fantasia, sobretudo em momentos de dor. Havemos de ser felizes.

Nota: Termino hoje a minha colaboração, enquanto colunista, com o DN. Foi um privilégio voltar a escrever numa publicação em que “nasci” como jornalista. A toda a equipa que faz o DN diariamente, na pessoa do director Filipe Alves, deixo uma palavra de reconhecimento pela oportunidade e pelo estoicismo com que mantêm vivo este monstro centenário. Aos leitores, uma mais singela, mas igualmente justa: de agradecimento pela vossa paciência.

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