Viver em outro país é uma destas experiências construídas por muitas travessias e expectativas. Habitar uma nova terra causa também um deslocamento interno que nos leva a reavaliar nossos propósitos e a existir em contradição: quero e não quero; amo e odeio; estou bem e tenho saudade. Como disse uma escritora e jornalista gaúcha, que conheci há um tempo, em Lisboa: “Vivemos em altos e baixos”. Eu me pergunto se alguma vez esse gráfico estabilizará, sem tantos picos e vales. Aí, imediatamente, me vem a imagem da linha reta, que aparece no monitor do hospital, quando uma pessoa não está mais viva.A mudança é nosso estado de origem, um aspecto natural, como já afirmaram pesquisadores, como demonstraram nossos ancestrais, mas algo que ainda é rejeitado por muitos governantes. Se vamos contra essa natureza, caímos em negação e sofrimento. Como seres humanos, estamos sempre alternando de pele, corpo, emoções, trabalho, casa, relacionamentos. Entretanto, ao emigrar, não nos convertemos com o toque de mágica na outra criatura imaginada por quem ficou: a rica, de quem falam os conhecidos; a bem-sucedida, comentada pela família; a independente, admirada pelos amigos; a irresponsável, como podem opinar alguns desconhecidos.Ser imigrante nos transforma numa espécie sem molde definido, povoada por medos, dúvidas, descobertas e pequenas alegrias. “Do outro lado, quem esperamos encontrar?”, é a pergunta que nos acompanha quando cruzamos territórios. “Como vai ser daqui por diante?”, as incertezas podem nos vulnerabilizar.Uma colega livreira, natural de Jundiaí, que mora em Lisboa desde 2022, disse que, do outro lado, esperava encontrar alguém mais corajosa e também poder dar asas à curiosidade. “E encontrou essa pessoa?”, perguntei. “Foi duro o processo, mas encontrei sim”, revelando que se tornou alguém mais aberto ao diverso e menos indiferente ao entorno. Já outro amigo, poeta pernambucano, passou por um contexto de demissão e fim de relacionamento há oito anos. Ele contou que não tinha expectativas à época e só queria encontrar, do outro lado, um recomeço. Pelo que acompanho, o amigo vem ultrapassando os desafios, ritmado pelo samba e pela literatura. Enquanto cria versos, descobre-se mais paciente, tolerante, “e menos ingênuo”.“Eu mudei muito e continuo a mudar. Talvez, essa minha versão imigrante até tenha me surpreendido… para melhor.”, revelou a colega escritora, natural de Porto Alegre, que vive em Portugal desde 2016. Ela atravessou o oceano para cursar um mestrado e encontrou do outro lado sua versão mais autêntica, autoral, resiliente. Assim como notou que está mais conectada com a própria cultura brasileira do que quando vivia no país. “Também sinto que fiquei menos apegada a bens materiais, valorizando mais o ser/estar do que o ter.”, reflete.Nesse meu percurso de quase uma década em Portugal (quase nem acredito nessa passagem de tempo), esperava encontrar alguém mais feliz. No entanto, conheci minha versão mais resistente. Percebi também que existo mais - alarguei minhas águas - sinto-me mais conectada com o mundo em geral.Do outro lado, acabei também assumindo a minha versão escritora. Essa que, desde criança, vinha pedindo um lugar para nascer. O parto se deu, finalmente, nas terras lusas, onde puxo os fios que me ligam às raízes portuguesas do meu avô materno. É um caminho que vem sendo construção permanente e parece que esperou essa travessia para fechar uma gestalt.Agora, a escritora olha para cenas na rua e não guarda a impressão apenas para si - por vergonha ou por acreditar que não é relevante. A escritora vê, sente, escreve e conta ao mundo como a vida comum consegue ser extraordinária.Escritora brasileira, com especialização em Escrita e Criação. Autora de "Um Lugar para Si - reflexões sobre lugar, memória e pertencimento”, além de jornalista e publicitária..O DN Brasil é uma seção do Diário de Notícias dedicada à comunidade brasileira que vive ou pretende viver em Portugal. Os textos são escritos em português do Brasil..Crônica. “A gente está dentro de uma caixa.” Já abriu a sua?.Crônica. Ser mulher em outro país