Crônica. Alô, alô, alguém na linha?

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Tarde de sábado, vento forte e céu nublado anunciavam tempestade em breve. Uma mensagem da Proteção Civil orientava: “risco de cheias e inundações, evite deslocamentos desnecessários”. Da janela da cozinha, reparei em um rapaz em pé na entrada do prédio. Esboçava sorrisos numa videochamada, alheio ao tempo e aos primeiros chuviscos.

Pensei ser daqueles que não se consideram de açúcar, não se desmancham com facilidade, adotando o discurso do imbatível. Sob o olhar de estranhos, parecia feliz com as palavras trocadas e gestos do outro lado da tela. Imaginei que, apesar do frio, o coração devia estar acelerado por uma felicidade recíproca, das que sustentam o dia com uma dose de “tudo é possível”, após dialogarmos com um certo alguém. Seria da família? Amiga? Namorada?

Supus que ele era imigrante, pois onde resido existe um apartamento que costuma abrigar trabalhadores de diferentes países. Ouvi comentários de que existem moradas assim, pagas pela entidade empregadora como benefício para os contratados de outras nacionalidades. Foi o que me explicou, certa vez, um colega que trabalhava em call center.

Os rapazes do rés do chão saem cedo da manhã, em grupo de três ou quatro, vestindo coletes amarelos e retornam ao final do dia segurando caixas de ferramentas. O jovem que avistei integra a nova rodada de inquilinos, variável a cada conjunto de meses, segundo consegui perceber. Eles têm uma dinâmica própria que se traduz em muito trabalho e alguma música. São conclusões superficiais de quem apenas cruza caminhos na porta de entrada. A vida de cada um corre sempre mais complexa do que julgamos.

Aquela alegria do rapaz em pé na entrada do prédio levou meu pensamento para o início da minha vida imigrante; quando as chamadas com a família eram mais frequentes. Qualquer ocorrido tinha caráter de novidade e metade do meu ser ainda residia no Brasil. 

Com os anos, as ligações foram cedendo lugar a frases curtas pelo WhatsApp, áudios perguntando sobre vídeos que repercutem no Brasil pelas gradações de xenofobia e racismo. Por último, temos falado sobre um Portugal assolado por intempéries. “A sua região foi atingida?”; “Muito frio por aí, prima?”; “Proteja-se!”

Ainda mantenho o hábito de telefonar a algumas amigas. Com uma delas, chegamos a seis horas de chamada, na qual almoçamos juntas e depois tomamos café com bolo, qual nossas tardes na varanda de casa. Um programa que não tem comparação.  

Na última sexta, durante uma viagem em carro de aplicativo, a motorista mineira comentou comigo sobre essa diminuição de ligações rotina imigrante. Ela disse que, ainda assim, resiste. Toda semana, reserva um dia para atualizar a vida com uma amiga que mora nos Estados Unidos. Também escreve cartas e envia a alguns eleitos no Brasil, à moda antiga. E ouve os áudios recebidos sem aumentar a velocidade: “É um respeito com a pessoa que dedicou tempo e também não quero perder informações que podem ser importantes”, revelou.

Olhei mais uma vez para o rapaz do térreo e cogitei se estava em começo de carreira; aparentava não muito além de 20 anos de idade. Será que as chamadas com os parentes continuam rotineiras? Será que cultiva o sonho de reagrupar família; já tem documentos renovados ou está na categoria dos mais de trezentos mil imigrantes com autorização de residência vencida?

Pela faixa etária, lembrei dos meus irmãos. Viajei ao tempo de quando eram crianças, assistiam ao mesmo desenho animado repetidas vezes, e guardavam no bolso o sonho de desbravar o mundo. Poderiam muito bem estar como aquele rapaz: longe de casa, resistente às tormentas, mas agasalhado por uma ligação.

O DN Brasil é uma seção do Diário de Notícias dedicada à comunidade brasileira que vive ou pretende viver em Portugal. Os textos são escritos em português do Brasil.
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