"Vou interferir. Ponto final". Mas Bolsonaro nega que vídeo confirme interferência

O vídeo foi divulgado na quinta-feira pelo ​​​​​​​STF, e destacam-se palavrões e injúrias por parte de Bolsonaro a ministros e a ameaça demissão "generalizada" por parte do Presidente a quem não adotasse a defesa de assuntos defendidos pelo Governo.

O Presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, disse na sexta-feira que o vídeo publicado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) não apresenta "nenhum indício" da sua alegada interferência na Polícia Federal, acrescentando que "mais uma farsa foi desmontada".

"Mais uma farsa desmontada, nenhum indício de interferência na Polícia Federal", escreveu Bolsonaro na rede social Facebook, publicando ainda o vídeo da sua reunião de ministros, divulgado pelo STF.

Mais tarde, em frente ao Palácio da Alvorada, a sua residência oficial em Brasília, Bolsonaro disse aos jornalistas que lamenta a situação em que o ex-ministro da Justiça Sergio Moro se colocou.

"Não existe um segundo no vídeo em que alguém possa suspeitar que interferi na Polícia Federal. Lamento pelo senhor Sergio Moro, posando de vítima, não sei quais são os seus interesses e não vou ser leviano, ao ponto de fazer falsas acusações. Espero que o senhor esteja feliz, tenha paz. Agora, o senhor é um juiz de renome. Fazer uma acusação como essa, quando o senhor estava presente, é o fim da picada", afirmou o chefe de Estado.

Em causa está uma reunião de ministros gravada em vídeo, em abril, ocorrida na sede da Presidência, em Brasília, e que foi citada no depoimento do ex-ministro Sergio Moro, que acusa Bolsonaro de alegada interferência na Polícia Federal.

O vídeo foi divulgado na quinta-feira pelo STF, e destacam-se palavrões e injúrias por parte de Bolsonaro a ministros e a ameaça demissão "generalizada" por parte do Presidente a quem não adotasse a defesa de assuntos defendidos pelo Governo.

No Palácio da Alvorada, Bolsonaro disse ainda que o conteúdo do vídeo é espontâneo e que não está preocupado se a sua divulgação o levará à reeleição ou não.

"Não estou preocupado, nunca estive. Dou um conselho: quer o caminho do fracasso? Diga sim a todo o mundo e pense em reeleição", afirmou o mandatário.

Na avaliação de Sergio Moro, além dos vídeos, outras provas por ele apresentadas mostram que Bolsonaro tentou interferir na polícia.

"A verdade foi dita, exposta em vídeo, mensagens, depoimentos e comprovada com factos posteriores, como a demissão do diretor-geral da Polícia Federal e a troca na superintendência do Rio de Janeiro. Quanto a outros temas exibidos no vídeo, cada um pode fazer a sua avaliação", escreveu Moro na rede social Twitter.

A reunião ministerial em causa ocorreu em 22 de abril, dois dias antes da renúncia de Moro, quando denunciou "pressões inaceitáveis" por Bolsonaro em relação à Polícia Federal, um órgão autónomo subordinado ao judiciário, embora o seu diretor seja nomeado pelo Presidente da República.

"O Presidente disse-me, mais de uma vez, expressamente, que ele queria ter uma pessoa do contacto pessoal dele [para quem] ele pudesse ligar, [de quem] ele pudesse colher informações, [com quem] ele pudesse colher relatórios de inteligência. Seja o diretor [da Polícia Federal], seja um superintendente", declarou Moro na ocaisão, ao anunciar a sua demissão.

De acordo com Moro, Bolsonaro teria exigido, perante os outros ministros, a troca do superintendente da Polícia Federal no Rio de Janeiro, para evitar uma investigação a familiares e aliados.

Na reunião, Bolsonaro disse: "Já tentei trocar gente da segurança nossa no Rio de Janeiro, oficialmente, e não consegui. Isso acabou. Eu não vou esperar f* [palavrão] minha família toda de 'sacanagem', ou amigo meu, porque eu não posso trocar alguém da segurança na ponta da linha que pertence à estrutura. Vai trocar! Se não puder trocar, troca o chefe dele. Se não puder trocar o chefe troca o ministro. E ponto final. Não estamos aqui para brincadeira", acrescentou o chefe de Estado, no vídeo.

Ao longo do encontro com ministros, Bolsonaro criticou ainda o serviço de informações do Governo, que considerou "uma vergonha".

"Que me desculpe o serviço de informação nosso - todos - é uma vergonha, uma vergonha, que eu não sou informado e não dá para trabalhar assim, fica difícil. Por isso, vou interferir. Ponto final. Não é ameaça, não é extrapolação da minha parte. É uma verdade", disse Bolsonaro, exaltado, no vídeo.

O chefe de Estado queixou-se ainda de falta de informações por parte da Polícia Federal.

"Eu não posso ser surpreendido com notícias. Eu tenho a Polícia Federal que não me dá informações; eu tenho as inteligências das Forças Armadas que não têm informações; a Abin [Agência Brasileira de Inteligência] tem os seus problemas, tem algumas informações, só não tem mais porque está faltando realmente (...) aparelhamento. Não podemos viver sem informação", acrescentou o mandatário.

Oposição garante que vídeo confirma interferência

Já os líderes da oposição garantem que o vídeo provou uma alegada tentativa de interferência política na Polícia Federal por parte de Bolsonaro.

Guilherme Boulos, um dos líderes do Partido Socialismo e Liberdade (Psol), que concorreu a Presidência em 2018, disse acreditar que Bolsonaro confessou a sua intenção de praticar crimes no material agora divulgado.

"URGENTE! Bolsonaro confessa crime no vídeo: 'Eu não vou esperar f* [palavrão] a minha família toda, de 'sacanagem', ou amigos meus, porque eu não posso trocar alguém da Segurança na ponta da linha. Vai trocar.' Não são palavras de um chefe de Estado, mas de um chefe de milícia!", frisou numa mensagem no Twitter.

Fernando Haddad, do Partido dos Trabalhadores (PT), candidato derrotado por Bolsonaro na segunda volta das últimas presidenciais, também avaliou que o vídeo comprova as denuncias feitas contra o chefe de Estado.

"Se a preocupação do presidente fosse com a segurança da família, ele não se referiria a "F**** AMIGO MEU". Não há dúvida. PF [Polícia Federal] não faz segurança de amigo. Nem vou falar do nível do governo. Sem condições!!", escreveu na rede social Twitter.

Outro político da oposição, o governador do estado brasileiro do Maranhão, Flávio Dino, filiado ao Partido Comunista Brasileiro (PCdoB), defendeu que o vídeo apresentou provas contra Bolsonaro, que podem justificar um processo de destituição.

"Na forma e no conteúdo, a tal reunião ministerial revela um repertório inacreditável de crimes, quebras de decoro e infrações administrativas. Além de uma imensa desmoralização e perda de legitimidade desse tipo de gente no comando da nossa Nação", escreveu Dino no Twitter.

"O vídeo da reunião ministerial é grave porque: 1. Confirma a delação de Sérgio Moro. 2. Contém diversos crimes contra a honra. 3. Revela planos de "armar a população" para fins POLÍTICOS. 4. Mostra inequívocos impulsos despóticos", acrescentou.

Já o governador de São Paulo, João Doria, ex-aliado de Bolsonaro que foi pessoalmente citado na reunião por Bolsonaro de forma pejorativa lamentou o conteúdo revelado pelo STF.

"O Brasil está atónito com o nível da reunião ministerial. Palavrões, ofensas e ataques a governadores, prefeitos, parlamentares e ministros do Supremo, demonstram descaso com a democracia, desprezo pela nação e agressões à institucionalidade da Presidência da República", escreveu Doria no Twitter.

Assim como Doria, Wilson Witzel, governador do Rio de Janeiro, ex-aliado de Bolsonaro nas que se distanciou do Presidente ao final das eleições, também foi citado de forma pejorativa por Bolsonaro na reunião revelada no vídeo e também reagiu.

"A falta de respeito de Bolsonaro pelos poderes atinge a honra de todos. Sinto na pele seu desapreço pela independência dos poderes. E espero que num futuro breve o povo brasileiro entenda que, do que ele me chama, é essencialmente como ele próprio se vê", criticou Witzel, também no Twitter.

Mais Notícias

Outros conteúdos GMG