Trump vítima de divisão que ameaça domínio republicano já em 2018

Depois de ter de retirar a proposta de reforma da saúde por falta de votos, presidente aposta tudo num "grande corte nos impostos"

Em 1994, Bill Clinton assistia à derrota do seu Partido Democrata numas eleições intercalares que viram os republicanos ganhar o controlo da Câmara dos Representantes pela primeira vez 1952. E em 2010, Barack Obama via a sua formação sofrer as maiores perdas na Câmara, no Senado e em termos de governadores desde a Grande Depressão. O partido do presidente ser castigado nas primeiras eleições depois da chegada deste à Casa Branca é assim uma espécie de tradição nos EUA - a exceção nos últimos anos foi George W. Bush, em 2002, que, ainda com a América na ressaca dos atentados do 11 de Setembro, viu os Republicanos conquistar lugares.

Depois de na sexta-feira se ver obrigado a retirar a reforma da saúde antes de uma derrota certa na Câmara dos Representantes, apesar de os republicanos terem maioria em ambas as câmaras do Congresso, Donald Trump prometeu não desarmar. E no Twitter voltou ontem a garantir que o Obamacare, a reforma introduzida pelo seu antecessor na Casa Branca, vai "explodir" e que "vamos conseguir uma grande reforma da saúde para O POVO. Não se preocupem!"

Mas o The New York Times era um dos media que ontem recordavam como o falhanço da reforma da saúde veio provar que Trump não conseguiu ser o "fazedor de acordos" que prometera ser na campanha, pondo em destaque a experiência no mundo dos negócios. Mais, com a popularidade nos 30 e poucos por cento, o partido dividido e a sua equipa, depois de uma demissão, ainda com três nomeados por confirmar pelo Senado e um lugar vago, o milionário pode estar a ter um início de mandato ainda pior do que outros inquilinos da Casa Branca.

Mas o presidente não será o único preocupado com o fracasso do que os media já chamava Trumpcare. Considerado demasiado radical pela ala moderada do partido e demasiado moderado pela ala mais à direita - a começar pelos membros do Freedom Caucus - e a oposição de todos os democratas, a reforma da saúde não conseguiu os votos necessários para passar na Câmara. Isto apesar dos esforços do seu líder, o speaker Paul Ryan, para negociar os apoios necessários dentro do seu próprio partido. "Fazer coisas grandes coisas é difícil", explicou Ryan aos jornalistas, antes de admitir que o "Obamacare é o que vamos ter no futuro próximo". Confrontado com as divisões que o levaram à presidência da Câmara em 2015, quando o antecessor, John Boehner, foi afastado pela ala direita, Ryan tem pela frente um dilema: ceder ao Freedom Caucus e alienar a ala moderada dos republicanos, além de acabar com qualquer hipótese de negociar com os democratas; ou tentar um acordo com os democratas e a ala moderada do partido e ficar sob ataque da extrema-direita e dos media que lhe são fiéis.

Ora, se por enquanto o lugar de Ryan não parece ainda em causa, as divisões internas que bloquearam a nova lei da saúde prometem não cair bem junto dos eleitores do partido. E quando no próximo mês voltarem aos seus estados para as férias da primavera, os congressistas e senadores republicanos podem ter dificuldades em justificar esse fracasso. Isto a menos de dois anos das intercalares de novembro de 2018, quando vão a votos todos os 435 membros da Câmara dos Representantes, um terço do Senado e 36 governadores (dos 50).

Ultrapassada, para já, a questão da reforma da saúde, as atenções do presidente e da maioria republicana vão centrar-se na reforma fiscal, além da muito prometida construção do muro na fronteira com o México e de um pacote de infraestruturas, cuja aprovação dependerá dos democratas. Trump já prometeu "um grande corte nos impostos", com o secretário do Tesouro, Steven Mnuchin, a garantir há dias que aprovar a reforma fiscal seria "mais fácil" do que a da saúde.

As mudanças a nível fiscal costumam ser complicadas. E se "um grande corte" é coisa que deve agradar a todos os republicanos, se a administração Trump decidir mexer nas deduções e nos subsídios que foram criados nas últimas décadas, pode rapidamente voltar a deparar-se com divisões dentro do próprio partido da maioria.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG