Transcrição de telefonema confirma: Trump pediu ao presidente da Ucrânia para investigar atividades de Biden

O presidente dos EUA pediu ao seu homólogo da Ucrânia, Volodymyr Zelenskiy, para que investigasse o ex-vice-presidente dos EUA em relação a uma empresa onde o filho trabalhava. O pedido foi feito durante uma conversa telefónica em julho, cuja transcrição foi revelada esta quarta-feira pela Casa Branca. Trump "traiu o nosso país", reagiu Hillary Clinton

Numa conversa telefónica, realizada em julho, o presidente dos EUA, Donald Trump, pediu ao seu homólogo ucraniano, Volodymyr Zelenskiy, para saber se o ex-vice-presidente Joe Biden mandou encerrar uma investigação sobre uma empresa, na qual trabalhava o filho, Hunter. Isto é o que revela o resumo da transcrição da chamada telefónica revelada esta quarta-feira pela Casa Branca, um documento que pode ler aqui.

Os pormenores da conversa mostram que, no dia 25 de julho, Donald Trump pediu ao presidente da Ucrânia para investigar o candidato democrata, cujo filho trabalhava para uma empresa de gás ucraniana Burisma.

A presidente da Câmara dos Representantes, Nancy Pelosi, anunciou na terça-feira que a Câmara liderada pelos democratas decidiu avançar com uma investigação oficial de "impeachment" e ordenou que seis comissões continuassem com as investigações sobre as ações do presidente.

Os democratas acusaram Trump, que procura a reeleição no próximo ano, de solicitar a ajuda da Ucrânia para difamar Biden, o principal candidato à nomeação democrata, antes das eleições de novembro de 2020.

"Há muita conversa sobre o filho de Biden, que Biden parou a investigação e muitas pessoas querem descobrir sobre isso, então tudo o que você puder fazer com o procurador-geral seria ótimo", disse Trump no telefonema com Zelenskiy, segundo o resumo fornecido pelo Departamento de Justiça norte-americano.

"Biden gabou-se de ter parado a investigação, então se você puder pesquisar isso... A mim parece-me algo horrível", pode ler-se na transcrição divulgada.

Trump referia-se às suspeitas de que o então vice-presidente, Joe Biden, terá pressionado o governo ucraniano para demitir o procurador-geral, que era acusado pelo Ocidente de ser muito moderado face a casos de corrupção.

Trump exige desculpas dos democratas

O presidente norte-americano já reagiu à divulgação do resumo oficial da transcrição do telefonema com o seu homólogo ucraniano e exige um pedido de desculpas dos democratas.

De acordo com Donald Trump esta foi uma conversa telefónica perfeitamente normal. "Devem os democratas pedir desculpas depois de saberem o que foi dito na chamada telefónica com o presidente ucraniano? Deviam. Foi um telefonema perfeito - apanhamo-los de surpresa", escreveu o chefe de Estado norte-americano na rede social Twitter.

O telefonema aconteceu depois de Trump ordenar o congelamento de quase 400 milhões de dólares (cerca de 365 milhões de euros) em ajuda norte-americana destinada às Forças Armadas da Ucrânia.

O presidente do EUA disse a Zelenskiy que o procurador-geral William Barr, o mais alto responsável pela Justiça nos EUA, iria entrar em contacto com ele para reabrir a investigação à empresa de gás ucraniana.

Trump, no entanto, não pediu a Barr para contactar as autoridades ucranianas, adiantou a porta-voz do Departamento de Justiça dos Estados Unidos, Kerri Kupec, e Barr não estabeleceu contactos com a Ucrânia acerca dessa investigação ou de qualquer outro assunto.

Trump está em risco, diz candidata democrata

Elizabeth Warren, candidata à nomeação democrata, refere que se esta é a versão dos acontecimentos que a equipa do presidente considera mais favorável então ele está em risco. "Precisamos de ver a denúncia completa e a administração Trump tem de cumprir a lei. Agora", exigiu a senadora do Massachusetts.

O senador republicano, Lindsey Graham, presidente da Comissão da Justiça do Senado, considera que o que revela a transcrição não é o suficiente para pedir a destituição do presidente dos Estados Unidos. "Do meu ponto de vista, destituir qualquer presidente por causa de um telefonema como este seria de loucos", disse Graham aos jornalistas.

Já o líder da minoria no Senado, o democrata Chuck Schumer, afirmou que a transcrição do telefonema entre Trump e o presidente ucraniano é "ainda pior" do que as alegações do relatório Mueller sobre a interferência russa nas eleições presidenciais de 2016, que deram a vitória a Donald Trump. "Aqui, o presidente está diretamente envolvido", justifica. Schumer afirma ainda que, tal como a Câmara dos Representantes, o Senado, através da sua Comissão dos Serviços Secretos deve investigar este caso.

"O presidente dos EUA traiu o nosso país", diz Hillary Clinton

A presidente da Câmara dos Representantes, Nancy Pelosi, voltou a afirmar que Donald Trump "vai ser responsabilizado" e que ninguém "está acima da lei". "O facto é que o presidente dos Estados Unidos, violando as suas responsabilidades constitucionais, pediu a um governo estrangeiro que o ajudasse na sua campanha política às custas de nossa segurança nacional, além de prejudicar a integridade das nossas eleições", disse Pelosi aos jornalistas.

Mais tarde, a presidente da Câmara dos Representantes emitiu um comunicado no qual afirma que a transcrição do telefonema mostra que o "presidente se envolveu num comportamento que mina a integridade das nossas eleições". Isto, diz Pelosi, juntamente com o facto de "o Departamento de Justiça agir de maneira desonesta por ser cúmplice na ilegalidade do presidente confirma a necessidade de um inquérito de 'impeachment'", lê-se no documento. "O Congresso deve agir, claramente", defende.

Hillary Clinton não tem dúvidas: "O presidente dos EUA traiu o nosso país". Sem meias palavras, a ex-primeira dama e candidata democrata às presidenciais de 2016, diz que se trata de uma "dura realidade" e que é tempo de agir. "Ele é um perigo claro e presente para as coisas que nos mantêm fortes e livres. Eu apoio a destituição", escreveu a também ex-senadora de Nova Iorque.

Também sem meias medidas, Bernie Sanders, outro dos candidatos à nomeação democrata para as presidenciais de 2020, manifestou a sua opinião. "Donald Trump é o presidente mais corrupto da história moderna deste país", escreveu o senador do Vermont no Twitter.

O republicano Mitt Romney não escondeu que o resumo da conversa telefónica "é profundamente perturbador". O senador do Utah e candidato presidencial em 2012 reafirmou esta quarta-feira o que tinha dito quando surgiu a polémica. "Se o presidente dos EUA pede ou pressiona um líder estrangeiro para levar a cabo uma investigação de natureza política isso é perturbador", disse aos jornalistas. Sobre a destituição, Romney afirmou que agora o processo vai reunir os "factos que acabarão por surgir".

Adam Schiff, presidente da Comissão dos Serviços Secretos na Câmara dos Representantes, afirmou que os detalhes da conversa de Donald Trump com o presidente ucraniano são mais graves do que esperava. "É chocante que a Casa Branca divulgue estas notas e ache que, de alguma forma, isto iria ajudar o caso ou a causa do presidente", afirmou o democrata.

À CNN, um alto funcionário da Casa Branca explicou que a transcrição foi feita com recurso a um software de reconhecimento de voz, tendo existido a colaboração de anotadores e de especialistas que ouviram o telefonema.

Depois de Pelosi anunciar a abertura de uma investigação oficial de "impeachment", Donald Trump reagiu, como sempre, na rede social Twitter. "Um dia tão importante nas Nações Unidas, tanto trabalho e tanto sucesso, e os democratas propositadamente tiveram que arruiná-lo e depreciá-lo com mais notícias de última hora sobre este lixo da caça às bruxas. Tão mau para o nosso país!", escreveu o presidente norte-americano, que participou na Assembleia Geral da ONU, em Nova Iorque.

Desde as intercalares de 2018, a Câmara dos Representantes tem maioria democrata, mas o Senado continua a ter maioria republicana. Ora para aprovar a destituição do presidente norte-americano são precisos dois terços dos votos do Senado. Na história dos EUA só houve três processos de "impeachment" contra presidentes, mas nenhum terminou com sucesso. Em 1974, Richard Nixon demitiu-se antes do fim do processo, em 1999 Bill Clinton foi ilibado pelo Senado, tal como acontecera com Andrew Johnson em 1868.

Presidente ucraniano diz que só o filho o pressiona

No seu primeiro discurso perante a Assembleia Geral da ONU, o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, optou por ignorar o escândalo que originou o conteúdo da conversa telefónica que teve com Donald Trump, a 25 de julho.

Mas antes da sua intervenção da Assembleia geral da ONU, Zelensky assegurou que a única pessoa que o consegue pressionar é o seu filho de 6 anos.

"A mim ninguém me pressiona porque sou o presidente de um país independente. A única pessoa que pode pressionar-me é o meu filho, que tem 6 anos", afirmou numa declaração emitida esta quarta-feira pelo canal russo Rossiya 24, após ser questionado se teria sido pressionado por Donald Trump.

Com agências.

Exclusivos