Trump irrita aparelho republicano mas bate recorde de doações

Candidato republicano às presidenciais recolheu 82 milhões de dólares em julho, aproximando-se dos 90 milhões da democrata Hillary Clinton. Mas milionários têm-lhe virado as costas.

Durante meses, a campanha de Donald Trump foi financiada sobretudo através da venda de T-shirts e bonés com o slogan "Tornar a América grande outra vez". E pela fortuna pessoal do próprio candidato republicano à Casa Branca. Mas tudo mudou nos últimos dois meses. E, em julho, o magnata do imobiliário recolheu 82 milhões de dólares, na maioria através de pequenas doações. Um valor que o deixa mais perto da rival democrata, Hillary Clinton, que no mês passado recolheu 90 milhões de dólares. E que prova que se está cada vez mais afastado do aparelho do partido, Trump conquistou o coração - e as bolsas - das bases republicanas.

Em rutura com os irmão Koch e com vários outros milionários, financiadores habituais dos republicanos, Trump pode mesmo tornar-se o primeiro candidato daquele partido a ter a campanha financiada na sua maioria por pequenas doações individuais de dez a 25 dólares cada. Um cenário a fazer lembrar o que caracterizou a campanha de Bernie Sanders nas primárias... democratas.

Depois de Charles Koch ter garantido que escolher entre Hillary e Trump nas eleições de 8 de novembro é como "escolher entre um cancro e um ataque cardíaco", no fim de semana o empresário e o irmão David resistiram às pressões para apoiarem a campanha do republicano. Sem, no entanto, darem apoio à democrata. Mas não são os únicos. Já nesta semana, Meg Whitman, a CEO da Hewlett Packard, tradicional financiadora dos republicanos, denunciou Trump como um "demagogo" sem condições para ser presidente dos EUA. Isto dias depois de Michael Bloomberg, o milionário ex-mayor de Nova Iorque e fundador da agência económica com o seu nome, ter discursado na convenção democrata, onde apelou ao voto em Hillary.

A estes nomes juntou-se ontem Seth Klarman, milionário gestor de fundos de investimento, para o qual os últimos comentários de Trump são "chocantes e inaceitáveis". Depois de ter atacado os pais de um soldado muçulmano morto no Iraque, insinuando que a mãe fora proibida pelo marido de falar, de ter dito que se fosse assediada sexualmente no emprego a filha "arranjaria outra carreira, ou de ter garantido que o presidente russo Vladimir Putin nunca entrará na Ucrânia (quando já anexou a Crimeia), Trump rematou a sua semana expulsando um bebé de um comício por estar a chorar.

Apesar da chuva de pequenas doações, esta fuga dos grandes nomes de Wall Street para a rival democrata pode prejudicar a campanha de Trump. Além de que a decisão de vários milionários - inclusive o terceiro homem mais rico do mundo, Warren Buffett, esse um velho apoiante democrata - de ficarem ao lado de Hillary vem tirar credibilidade a um candidato que gosta de garantir que irá gerir o país como gere os negócios.

Os últimos dias não foram fáceis para Trump. Apesar das garantias do candidato de que a sua campanha está mais unida do que nunca, os seus ataques contra os Khan, o casal de imigrantes paquistaneses cujo filho foi morto no Iraque em 2004, valeram-lhe duras críticas do aparelho republicano. A começar por Paul Ryan, o speaker da Câmara dos Representantes, e Mitch McConnell, o líder da maioria no Senado, mas também de John McCain, o senador, candidato presidencial em 2012 e veterano do Vietname, que condenou as palavras de Trump, sublinhando que este não fala pelo partido.

Como se não bastasse, as sondagens também têm trazido más notícias ao candidato republicano. Depois de ter ultrapassado Hillary nos inquéritos a nível nacional após a convenção republicana, viu a rival voltar para a frente. O último estudo da conservadora FOX News dá mesmo dez pontos de vantagem à ex-primeira-dama - 49% contra 39% das intenções de voto.

A questão que os analistas agora põem é se esta é apenas mais uma fase má da qual o milionário vai sair por cima - como quando Trump insultou as mulheres, quando chamou "violadores e traficantes" aos mexicanos, quando prometeu banir os muçulmanos dos EUA - ou se desta vez o candidato republicano está mesmo em apuros. Olhando para o mapa da América, o cenário complica-se, com Hillary a ganhar vantagem também em estados essenciais para uma vitória em novembro. É o caso do Colorado, como sublinhava ontem o Politico, mas também da Pensilvânia ou Nevada.

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