Trump entrega diplomacia ao escuteiro que é amigo de Putin e CEO da Exxon

Presidente eleito garante que a carreira de Rex Tillerson é a "realização do sonho americano". Moscovo saúda um "profissional"

Em 2011, Rex Tillerson viajou até Sochi, no mar Negro, para assinar com o presidente russo Vladimir Putin um acordo de parceria entre a ExxonMobil, a petrolífera que liderava desde 2006, e a estatal russa Rosneft para a exploração do petróleo do Ártico. Mas as sanções económicas impostas à Rússia depois da anexação da Crimeia em 2014 e do conflito no Leste da Ucrânia atrasaram a colaboração. Com Tillerson escolhido por Donald Trump para secretário de Estado, não faltam agora críticos a denunciar um conflito de interesses. Como chefe da diplomacia americana, o texano de 64 anos tem poder para defender o fim das sanções, beneficiando a empresa para a qual trabalhou toda a vida.

"A carreira de Rex Tillerson é a realização do sonho americano", afirmou Trump no comunicado que anunciava a escolha do CEO da Exxon para secretário de Estado. Para o presidente eleito, "a sua tenacidade, vasta experiência e profundo entendimento da geopolítica tornam-no uma excelente escolha" para chefiar a diplomacia americana. Trump alargou os elogios ao Twitter, onde lembrou que o que mais gosta em Tillerson é "que tem vasta experiência a lidar com todo o tipo de governo estrangeiro".

Nascido e criado em Wichita Falls, o escuteiro (presidiu à associação dos escuteiros da América entre 2010 e 2012) formou-se em Engenharia Civil na Universidade do Texas em Austin em 1975. Logo nesse ano entrou para a Exxon, tendo subido nas fileiras da empresa até chegar à presidência em 2006.

Nas mais de quatro décadas à frente da petrolífera descendente da Standard Oil de John D. Rockefeller, Tillerson teve de lidar com os líderes de vários países onde a empresa tem interesses. Do Qatar à Nigéria, da Guiné Equatorial ao Sudão, passando, claro, pela Rússia. Segundo Steve Coll, autor de Private Empire: ExxonMobil and American Power (Império Privado: ExxonMobil e o Poder Americano), Tillerson não hesitava, como empresário, em ignorar a posição oficial dos EUA para chegar a um acordo vantajoso. É o que terá feito no Iraque quando assinou um acordo com o governo regional do Curdistão, ultrapassando o governo de Bagdad e só depois dando satisfações à administração Obama. "Tillerson privilegia os negócio com países com estabilidade política, mesmo que essa estabilidade seja alcançada através de métodos autoritários", explica Coll num artigo na revista The New Yorker.

A escolha de Tillerson para secretário de Estado foi saudada pelo Kremlin, que em comunicado elogiou um "profissional" que tem "boas relações de trabalho" com o presidente Putin - os dois conhecem-se desde os anos 1990, quando Tillerson supervisionou um projeto da Exxon na ilha russa de Sacalina. E o ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Serguei Lavrov, disse por seu lado, esperar que o "pragmatismo" do texano seja "uma base sólida para o desenvolvimento de relações mutuamente benéficas para a cooperação russo-americana e para a resolução dos problemas internacionais".

A relação entre EUA e Rússia tem vindo a degradar-se nos últimos anos, quando à visível tensão entre Barack Obama e Putin se juntaram a anexação da Crimeia, o conflito na Ucrânia e posições divergentes sobre a guerra na Síria.

Durante a campanha, Trump garantiu que a aproximação a Moscovo é uma das suas prioridades. E Tillerson será, sem dúvida, o homem certo para a liderar. Afinal até recebeu de Putin, em 2013, a Ordem da Amizade, condecoração atribuída a estrangeiros que se destacaram através de esforços para melhorar a relação com a Rússia. Mesmo qualquer tentativa para aligeirar as sanções contra Moscovo contará com a oposição de França e Alemanha.

Mas o novo chefe da diplomacia terá mais desafios pela frente. A começar pela crescente irritação de Pequim com Trump depois de este ter atendido um telefonema da presidente de Taiwan, Tsai Ing--wen, e de ter posto em causa a política de uma só China seguida pelos EUA desde 1979. Ontem, Pequim voltou a avisar: quem ameaçar os seus interesses em Taiwan estará a "erguer uma pedra que lhe vai esmagar os pés".

Síria, nuclear iraniano e acordos sobre o clima são outros dossiês que irão parar às mãos deste pai de família - tem quatro filhos - cujas posições em termos de política externa são pouco conhecidas.

Críticas republicanas

Tillerson está, portanto, longe de ser uma escolha unânime, inclusive entre os republicanos. Um dos maiores críticos é o senador John McCain. Candidato presidencial em 2008, o veterano da guerra do Vietname repetiu na CNN que "este homem [Putin] é um bandido e um assassino, não vejo como é que se pode ser amigo de um antigo agente do KGB". Uma opinião partilhada pelo senador Marco Rubio, rival de Trump nas primárias republicanas deste ano. "Ser amigo de Vladimir não é uma característica que eu esperava num secretário de Estado", admitiu o representante da Florida.

E quem confirma a proximidade com o líder russo é o próprio Tillerson, que em fevereiro, numa comunicação aos alunos da Universidade do Texas, garantia: "Tenho uma relação muito próxima com" Putin. "Não concordo com tudo o que ele faz. Não concordo com o que muitos líderes fazem. Mas ele compreende que sou um empresário. Investi, a nossa empresa investiu muito dinheiro na Rússia de forma muito bem-sucedida", explicou.

As posições duras de alguns senadores antecipam um processo de aprovação do nomeado pelo Congresso que se adivinha mais difícil do que seria de esperar num Congresso dominado pelos republicanos. Isto num momento em que se multiplicam os apelos a uma investigação aos alegados atos de pirataria informática de hackers russos nas presidenciais, para favorecer Trump. "Teorias da conspiração", desvalorizou o presidente eleito.

A pouco mais de um mês da posse, a equipa de Trump começa a ganhar forma, com o ex-governador do Texas Rick Perry a ser o último nome falado para a administração. Deverá, segundo fontes citadas pelo The Washington Post, ser secretário da Energia, um departamento que em 2011 ameaçou abolir.

Mais Notícias

Outros conteúdos GMG