Trump e o abandono dos curdos: "Não nos ajudaram na Normandia"

Cada declaração do presidente norte-americano aponta num sentido diferente em relação aos curdos e ao conflito na Síria. Agora justifica a retirada das tropas dos EUA porque os curdos não foram aliados na Segunda Guerra Mundial.

Donald Trump minimizou o papel dos curdos ao afirmar que eles não ajudaram os Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial e que se limitaram a lutar pelas suas terras na Síria durante a batalha contra o Estado Islâmico.

"Só para que percebam, os curdos estão a lutar pelas suas terras," disse Trump aos jornalistas na Casa Branca. "E como alguém escreveu num artigo muito, muito poderoso hoje, eles não nos ajudaram na Segunda Guerra Mundial, eles não nos ajudaram na Normandia, por exemplo. Mas eles estão lá para nos ajudar com a terra deles e isso é uma coisa diferente".

Trump insistiu que os EUA gastaram "enormes quantias de dinheiro" em ajuda aos curdos na compra de munições e de armas. "Dito isto, nós gostamos dos curdos", afirmou.

Esse "enorme" investimento é rejeitado pelas Unidades de Proteção Populares (YPG), a fação mais importante das Forças Democráticas Sírias (SDF), e considerada terrorista pelos turcos. "Não temos armas pesadas [dos EUA] que seriam úteis contra aviões ou tanques turcos", disse uma fonte das YPG à Reuters. "As armas mais pesadas que recebemos dos EUA são algumas munições de morteiros, nada mais pesado. Nada de mísseis, nada de armas antiaéreas, nada de antitanques", acrescentou.

Os comentários de Trump na Sala Roosevelt -- que começaram como uma crítica aos aliados da NATO e em especial à Alemanha, por contribuírem menos do que deveriam -- seguiram-se a um comunicado, horas antes, no qual o presidente declarou não apoiar o ataque turco, que classificou de "má ideia". Na declaração, Trump responsabilizou Ancara pelos milhares de combatentes do Estado Islâmico presos pelos curdos.

Trump reagia à operação "Fonte de paz", lançada pelas forças armadas turcas, uma ofensiva no norte da Síria contra as forças curdas que foram aliadas com os Estados Unidos na luta contra os terroristas do Estado Islâmico. A Turquia considera as YPG um grupo terrorista por causa das ligações com o PKK turco, que luta há décadas pela autodeterminação curda.

Em entrevista à PBS, o secretário de Estado Mike Pompeo defendeu a decisão de Trump e concordou com as preocupações do regime turco. "Têm uma preocupação legítima" e "uma ameaça terrorista a sul", disse. Porém, afirmou que a saída dos militares norte-americanos não foi acompanhada de uma aprovação à ofensiva turca. "Os Estados Unidos não deram luz verde à Turquia."

181 alvos atingidos, civis atacados

Ao início do segundo dia do ataque, o exército turco atingiu 181 alvos das milícias curdas com a sua força aérea e artilharia. Um dos alvos, denunciaram as Forças Democráticas Sírias, foi uma as prisões onde os combatentes do Estado Islâmico estão detidos.

"A Operação Fonte de Paz continua como planeada através da fronteira", escreveu no Twitter o vice-presidente da Turquia, Fuat Oktay.

As tropas entraram na Síria em quatro pontos, dois deles perto de Tel Abyad e outros dois perto de Ras al-Ain, mais a leste, segundo relatos da comunicação social turca.

Os ataques aéreos mataram pelo menos cinco civis e três combatentes das SDF, e deixaram dezenas de civis foram feridos, informaram as SDF. Milhares de pessoas fugiram de Ras al-Ain para a província de Hasaka.

O porta-voz das SDF, Mustafa Bali, disse que os combatentes do grupo tinham conseguido repelir um ataque terrestre das tropas turcas em Tel Abyad.

Entretanto, forças norte-americanas levaram dois militantes do topo da hierarquia do Estado Islâmico para fora do país. Os dois terroristas pertenciam ao grupo de combatentes britânicos apelidado de Beatles, que tinham a seu cargo a tortura e as execuções de reféns ocidentais.

O presidente dos EUA abriu o caminho para a operação militar turca quando anunciou no domingo à noite que ia retirar as forças daquela região da Síria. A Casa Branca anunciou a retirada das forças americanas depois de Trump ter falado ao telefone com o homólogo turco, Recep Tayyip Erdogan.

Cintura árabe a caminho

Mas se o presidente norte-americano considera a operação uma "má ideia" isso não significa que não tenha dado o aval para a mesma. A conselheira de Erdogan, Gulnur Aybet, disse à CNN que "o presidente Trump e o presidente Erdogan chegaram a um entendimento sobre o que é precisamente a operação".

Mais do que o ataque e a invasão militar turca, os curdos temem pela segunda parte da operação "Fonte de paz", que é a ocupação das suas terras pelos milhões de refugiados sírios, que são árabes sunitas. A concretizar-se irá criar uma espécie de cintura árabe entre os curdos da Síria e os curdos da Turquia, provocando uma limpeza étnica na região.

Trump comentou a questão numa perspetiva económica: "Ele [Erdogan] pode fazer isso de uma maneira suave. Ele pode fazer isso de uma maneira muito dura. E se o fizer de forma injusta, vai pagar um preço económico muito elevado."

Se os curdos reagiram à decisão de Trump como uma "facada nas costas", alguns dos seus maiores aliados no partido republicano, como Lindsey Graham ou Marco Rubio, também não esconderam a sua indignação, quebrando uma aparente unanimidade face ao líder.

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