Trump diz agora que não vai abandonar os curdos

O anúncio de retirada do norte da Síria juntou republicanos e democratas e a comunidade internacional. O presidente norte-americano comunicou que não vai abandonar os curdos e advertiu os turcos para as consequências de uma invasão.

O presidente dos Estados Unidos Donald Trump dirigiu-se elogiosamente ao povo curdo e voltou a ameaçar Ancara de que irá destruir a economia turca caso o exército se envolva em "combates desnecessários". No entanto, não voltou atrás na retirada da Síria nem no plano do presidente turco, Recep Tayyip Erdogan de entrar militarmente no Curdistão sírio para depois repovoá-lo com dois milhões de refugiados sírios.

"Podemos estar no processo de deixar a Síria, mas de maneira alguma abandonámos os curdos, que são pessoas especiais e combatentes maravilhosos. Da mesma forma, nosso relacionamento com a Turquia, um parceiro comercial e da NATO e comercial, tem sido muito bom. A Turquia já tem uma grande população curda e compreende totalmente que, enquanto só tínhamos 50 soldados em permanência nessa região da Síria e eles foram retirados, qualquer combate não forçado ou desnecessário pela Turquia será devastador para a sua economia e para a sua moeda muito frágil. Estamos a ajudar os curdos financeiramente/armas!"

Foi assim que Donald Trump voltou à controvérsia sobre a retirada dos Estados Unidos da Síria. A Casa Branca anunciou no domingo à noite, sem consultar os aliados nem os membros do Congresso, que tinha concordado em deixar a Turquia ocupar uma faixa do norte da Síria, que é atualmente controlada por curdos, no final de um telefonema com o homólogo turco, Recep Tayyip Erdogan.

Os curdos, que através das Forças Democráticas Sírias (SDF) foram o exército que no terreno se bateu e derrotou os terroristas do autoproclamado Estado Islâmico, mantêm uma disputa com a Turquia sobre o seu direito à autodeterminação. Para Ancara os curdos da Síria, em especial a YPG (Unidade de Proteção do Povo) não é mais do que um ramo do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), organização que é considerada terrorista pela União Europeia.

A conselheira de Recep Erdogan, Gülnur Aybet, respondeu no Twitter a Hillary Clinton. A ex-secretária de Estado escrevera: "Sejamos claros: o presidente ficou do lado dos presidentes autoritários da Turquia e da Rússia em vez dos nossos aliados leais e dos próprios interesses dos EUA. A sua decisão é uma traição repugnante tanto dos curdos como seu juramento da investidura". Ao que Aybet respondeu que o PKK "é uma organização terrorista assim reconhecida pelos EUA" e que o PKK é igual a YPG.

Erdogan disse na Assembleia Geral da ONU, em setembro, que quer estabelecer uma "zona segura" de 32 quilómetros a partir da sua fronteira para os refugiados sírios, aproveitando para afastar a milícia curda YPG. E não afastou a hipótese de ir até mais longe na sua incursão.

Segundo o jornalista da NBC Richard Engel, as tropas norte-americanas ainda não receberam ordens para retirar, no entanto, é de esperar que a Turquia "faça algum tipo de ofensiva, ainda que simbólica, para salvar a face".

É que Ancara já respondeu, pelo vice-presidente turco, que a Turquia não vai curvar-se às ameaças do seu parceiro da NATO. Sem ter mencionado os EUA, Fuat Oktay disse que a Turquia tinha a intenção de combater os combatentes curdos sírios através de sua fronteira na Síria e de criar uma zona que permitiria à Turquia reinstalar ali refugiados sírios. "No que diz respeito à segurança da Turquia, determinamos o nosso próprio caminho, mas estabelecemos os nossos próprios limites", disse Oktay.

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