Theresa May: o Brexit a trouxe ao poder e o Brexit a derrubou

Theresa May, de 62 anos, recebeu de David Cameron o presente envenenado do Brexit em 2016. Sobreviveu a umas eleições antecipadas, a duas moções de censura, uma dos deputados do seu partido e outra do Labour, a três chumbos do seu acordo do Brexit com a UE27 e a todo o tipo de críticas, acusações e piadas. A pressão tornou-se insuportável e esta sexta-feira anunciou a demissão em frente ao N.º 10 de Downing Street

Quase três décadas depois a história repete-se no Reino Unido. Uma mulher primeira-ministra, minada pelo seu próprio partido, o Conservador, por causa de divergências relacionadas com a União Europeia, anuncia a sua demissão da liderança dessa formação política e, consequentemente, da chefia do governo britânico.

"Vou deixar em breve o cargo que tive a maior honra da minha vida em desempenhar. Fui a segunda mulher primeira-ministra mas não serei certamente a última. Saio sem ressentimento. Saio com uma enorme gratidão por ter tido a oportunidade de servir o país que amo", declarou esta sexta-feira de manhã, Theresa May, que deixará o cargo a 7 de junho (depois de receber o presidente dos EUA, Donald Trump, em Londres, entre 3 e 5 de junho).

O dia de hoje, 24 de maio de 2019, transporta-nos para o dia 22 de novembro de 1990. Nessa data, Margaret Thatcher informou a Rainha e a câmara dos Comuns da decisão de deixar de ser líder dos conservadores e do governo britânico, abandonando o N.º 10 de Downing Street, seis dias mais tarde, tranquila, mas sentindo-se emocionada e traída.

No caso de Thatcher o que aconteceu foi que, face às suas reticências em concordar que o Reino Unido aderisse ao Mecanismo Europeu de Taxas de Câmbio, o seu vice-primeiro-ministro, Geoffrey Howe, demitiu-se a 1 de novembro de 1990. 13 dias depois, Michael Heseltine desafiou-a na liderança do partido, tendo forçado uma segunda volta da votação. Entre voltas, a Dama de Ferro foi aconselhada a desistir. E assim fez. A corrida à sua sucessão foi depois ganha por John Major. Este lideraria o partido e o governo até às eleições de 1992, as quais venceu contra o Labour, governando até 1997.

Heseltine, hoje em dia membro da câmara dos Lordes, indicou recentemente que, nestas eleições europeias, iria votar no Partido Liberal-Democrata depois da má prestação de May e do Partido Conservador no dossiê do Brexit. O mesmo fizeram outros altos dirigentes do partido e do Labour, maior formação da oposição, descontentes com Jeremy Corbyn. O líder trabalhista, que sempre boicotou o acordo de May sobre o Brexit mas nunca se quis comprometer com alternativas, quer eleições antecipadas. Nestas europeias, cujos resultados oficiais só são conhecidos domingo, espera-se que os liberais democratas, pró-União Europeia, sejam a segunda formação mais votada logo a seguir ao Partido do Brexit.

Foram John Major e o facto de ter assinado o Tratado de Maastricht em nome do Reino Unido as razões na origem da criação do agora tão falado European Research Group, em 1992, atualmente liderado por Jacob Rees-Mogg. Brexiteer radical, submeteu uma moção de censura interna contra May, em dezembro, mas perdeu. Na sombra, continuou sempre a minar a liderança da primeira-ministra e hoje, dia do seu 50.º aniversário, recebeu a demissão da mesma como prenda.

Natural de Sussex, Inglaterra, Theresa May é tal, como a chanceler alemã Angela Merkel, filha de um pastor. No caso da primeira anglicano, no da segunda protestante. Nem uma nem outra tem filhos, sendo que a britânica falou abertamente sobre isso. Formada em geografia, ex-funcionária do Banco de Inglaterra, a primeira-ministra demissionária, de 62 anos, chegou a deputada na câmara dos Comuns em 1997, ou seja, no ano em que Partido Conservador foi derrotado pelo Labour e a Terceira Via de Tony Blair.

Os trabalhistas ficaram no poder durante três mandatos consecutivos e só saíram com a vitória de David Cameron nas legislativas de 2010. Com ele no poder, May foi secretária de Estado das Mulheres e da Igualdade e, depois, ministra do Interior. Três anos depois, a 12 de março de 2013, Gaby Hinsliff escrevia, no The Guardian, um artigo intitulado "Será uma mulher a próxima primeira-ministra britânica?". A ilustrar o artigo estavam duas mulheres, Theresa May e Yvette Cooper, que na altura eram, respetivamente, ministra do Interior e ministra-sombra do Interior. A trabalhista, como se viu nos últimos meses, revelou-se uma figura central nos procedimentos do Brexit, sobretudo nos votos indicativos, muito mais do que o próprio líder do Labour Jeremy Corbyn.

Efetivamente, como previra Hinsliff naquele artigo, o próximo inquilino do n.º 10 de Downing Street foi, efetivamente, uma mulher. A razão por que isso aconteceu, a vitória do Brexit no referendo prometido por Cameron e realizado a 23 de junho de 2016, com um resultado de 52%-48%, é também, em grande parte, a razão pela qual os caminhos de May e Cooper se voltaram agora a cruzar na Câmara dos Comuns. Foi pressionada por uma das emendas de Cooper que a chefe de governo demissionária pediu uma nova extensão do Artigo 50.º para adiar o Brexit (este estava previsto para 29 de março, mas encontra-se adiado e pode, em última análise, acontecer até ao dia 31 de outubro).

Foi na sequência da demissão de Cameron, em choque com o resultado do referendo sobre a UE, que May chegou ao poder. Assumiu o cargo a 13 de julho de 2016 depois de aceitar o presente envenenado do Brexit. Num documentário da BBC Two, George Osborne, que foi demitido de ministro das Finanças quando Theresa May sucedeu a David Cameron em Downing Street, conta que, numa reunião, o então primeiro-ministro perguntou aos ministros quais eram as suas opiniões sobre o referendo do Brexit. "Theresa May não disse muito sobre isso, o que, aliás, acontecia, por defeito, nestas reuniões", conta Osborne, que hoje em dia é diretor do jornal Evening Standard, o qual publicou nos últimos dias uma série de notícias a dar conta da pressão interna no Partido Conservador para May se demitir do N.º 10 de Downing Street.

Já no poder, a nova chefe do governo britânico viu o tribunal obrigar a que a ativação do Artigo 50.º do Tratado de Lisboa tivesse de ser aprovada pelo Parlamento. Coisa que ela não queria. Mas assim aconteceu. A 29 de março de 2017, May acionou o artigo que permite a um Estado membro pedir para sair da União Europeia. Os britânicos, que aderiram em 1973, sempre foram colocando entraves, ao longo do tempo, ao processo de integração europeia, conseguindo, aqui e ali, em todas as negociações, os chamados opting-outs, ou seja, cláusulas de exclusão para não se comprometerem nalgumas áreas.

Em abril de 2017, sentindo a necessidade de se legitimar nas urnas, May optou por eleições antecipadas. As sondagens colocavam o Partido Conservador em vantagem face ao Labour liderado por Jeremy Corbyn. Mas as contas saíram furadas e a vantagem reduziu-se consideravelmente, resultando as eleições num hung Parliament. Perdeu a maioria absoluta que Cameron tinha conseguido em 2015 para os conservadores. Por causa disso, May ficou então a depender do apoio dos dez deputados do Partido Unionista Democrático (DUP) da Irlanda do Norte.

Face a essa dependência do DUP, associada à rebelião de deputados conservadores que contestam o backstop (mecanismo de salvaguarda para evitar o regresso de uma fronteira física entre a Irlanda do Norte e a Irlanda no pós-Brexit), May sofreu a maior derrota história de sempre na Câmara dos Comuns, a 15 de janeiro, quando os deputados chumbaram pela primeira vez o acordo do Brexit fechado entre Londres e a UE27 em novembro de 2018.

Na sequência disso, Corbyn, que no passado apresentara apenas uma moção de censura contra May, avançou com uma moção contra todo o governo, para fazê-lo cair. E exigiu eleições antecipadas. Perdeu. May, que em dezembro sobrevivera a uma moção de desconfiança no próprio Partido Conservador, sobreviveu a esta também.

E eis que May, de fraca, passou a ser apelidada de forte, decidida, comprometida com o interesse nacional. A primeira-ministra ofereceu depois diálogo com todos os partidos, para encontrar um plano B, o qual não resultou em nada de concreto. As negociações foram dadas como falhadas, com acusações de May a Corbyn, críticas de Corbyn a May.

No entretanto, a primeira-ministra tentou fazer aprovar o acordo do Brexit mais duas vezes, mas falhou. Na terça-feira passada, May ainda fez uma proposta final de 10 alterações ao acordo, para tentar aprová-lo numa quarta ronda. Entre outras coisas admitia que os deputados votassem se queriam ou não organizar um referendo ao acordo final. A primeira-ministra demissionária chegou a dizer que se o acordo a que chamou novo fosse aprovado, o Reino Unido poderia mesmo sair da União Europeia até ao final do mês de julho. No entanto, as reações más foram tantas que a proposta nem sequer chegou a ser publicada ou discutida e a líder conservadora acabou por ter de se demitir.

O Brexit a trouxe ao poder. O Brexit a tirou de poder. As lutas do Brexit não acabaram. Seguem dentro de momentos, Só que já sem Theresa May como uma das principais protagonistas. Muita tinta vai ainda correr sobre este assunto. Depois de conhecidos os resultados oficiais das europeias, no domingo, depois de conhecido o novo líder dos conservadores britânicos e depois de ver o que este consegue - ou não - fazer de diferente em relação a May no que toca ao Brexit.

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