"Seria ingrato que muitos povos em África e na América Latina não rendessem tributo a Fidel"

Arturo Lopez-Levy, cubano-americano professor na Universidade do Texas, esteve em Lisboa para uma conferência no ISCTE-IUL e falou ao DN sobre o futuro das relações entre os Estados Unidos e Cuba depois da vitória presidencial de Trump, mas acabou a atualizar por e-mail a entrevista por causa da morte de Fidel

Como comenta a "brutal" reação de Donald Trump à morte de Fidel Castro? É provável uma diferente abordagem do futuro presidente a Cuba comparada com a de Barack Obama?

É um péssimo sinal, e em conjunto com os atos e nomeações do presidente eleito indica uma rejeição da aproximação a Cuba feita pelo presidente Obama. Trump nomeou Michael Flynn como seu conselheiro de Segurança Nacional. Este general diz que os Estados Unidos enfrentam uma "aliança global" em que empacotou juntos a Coreia do Norte, Cuba, Venezuela e o fundamentalismo islâmico. Este falso diagnóstico só distrai dos perigos reais e entorpece a cooperação com os aliados que não o partilham. A questão hoje é quão radical vai ser a mudança de rumo. Cuba não é uma prioridade para a política externa norte-americana, pelo que é possível que o dossiê da ilha fique sob a alçada das lógicas institucionais do Departamento de Estado. Essa não tem sido a prática histórica. Dado o vazio criado pela falta de atenção, frequentemente a racionalidade da política externa tem sido abandonada na relação bilateral com Cuba e intrometem--se os grupos de interesse e de pressão pró-embargo do Sul da Florida. Toda a reversão dos passos dados por Obama é possível, pois são ordens executivas que dependem da vontade do presidente em funções. Na prática, é difícil que Trump reverta a abertura de embaixadas ou volte a incluir Cuba na lista do Departamento de Estado de nações terroristas. Cuba não tem cadastro algum nessa área e a sua inclusão desacreditaria a própria lista como instrumento de política externa.

Em Miami houve exilados a celebrar a morte de Fidel. Quão profundo é o ódio da comunidade cubano-americana aos Castro?

É um ódio bem assente nos traumas causados pela revolução cubana, que não foi um passeio pela praia, cometendo atropelos, e também na cultura política, do ressentimento e da vitimização hiperbolizada reproduzida em Miami que chega à mentira de comparar Fidel Castro com Hitler e Estaline. Tanta festança pela morte natural de Fidel Castro é uma confissão de derrota e a ausência de uma cultura da vida.

Até que ponto os cubano-americanos são diferentes dos outros hispânicos que vivem nos Estados Unidos? São os únicos que votam maioritariamente nos candidatos republicanos?

O voto cubano mudou nos últimos anos, surgindo um consistente terreno democrata próximo dos 45% em Miami e próximo dos 50% se se contabilizam os cubanos que vivem noutras partes dos Estados Unidos. Ao contrário de outras comunidades hispânicas, a comunidade cubano-americana é o resultado de um transplante para solo dos Estados Unidos das elites pré--revolucionárias, com uma grande componente de classe alta e média e modelos de educação política anticomunista, discriminação racial e elevada participação política. Esses traços impulsionaram uma aliança com o Partido Republicano. Isso, porém, tem vindo a mudar com as últimas levas de imigrantes e com os cubanos que crescem dentro da cultura norte-americana.

Como analisa a estratégia de Obama em relação a Cuba?

A estratégia de negociação de Obama baseia-se no interesse nacional e nos valores norte-americanos, incluindo um reconhecimento corajoso do fracasso de mais de 50 anos de política imperial coerciva dos Estados Unidos contra Cuba. Não é uma cedência ao governo cubano mas sim um ajuste funcional para preservar a liderança norte-americana numa ordem global e regional em que Cuba está integrada politicamente na América Latina com relações estáveis com os aliados norte-americanos na Europa, Canadá e Japão e atitudes positivas em relação a Havana por parte da Rússia e da China, os rivais estratégicos da ordem liberal que Washington encabeça.

Como cubano, como avalia o legado de Fidel?

Fidel Castro foi o político que deixou maior marca na história de Cuba e o cubano que desempenhou o papel mais influente nos assuntos globais. Seria ingrato que muitos povos em África e na América Latina não lhe rendessem tributo. Cuba sob a sua liderança enviou milhares de soldados, médicos e professores a todos os confins do mundo para enfrentar as tropas racistas do apartheid sul-africano, as doenças como o ébola e o analfabetismo. Ao falar -se de Fidel Castro e dos direitos humanos, esse apoio à saúde global e à igualdade racial de milhões tem de ser tido em conta. Com Fidel, o nacionalismo cubano derrotou o intervencionismo norte-americano reivindicando a soberania e independência cubana. Da mesma forma, removeu a atitude indolente da classe política anterior perante os sérios problemas de racismo, de distribuição da riqueza e de pobreza. Cometeu abusos e erros? Sem dúvida. Quaisquer que tenham sido as vitórias da revolução cubana em termos de independência nacional, justiça social e estatuto internacional, nem uma economia desenvolvida sustentável nem uma democracia com direitos cívicos e políticos de acordo com os padrões internacionais estão entre elas. Montou um modelo económico de forte cunho antimercado que provou ser uma barreira à prosperidade económica apesar de um investimento significativo na educação e na saúde. É importante que juntamente com a crítica aos seus defeitos se faça um balanço das suas vitórias e vice-versa.

Teremos de esperar pelo pós-Raúl Castro para assistir a uma verdadeira democratização da ilha?

Já existe um processo de liberalização que expande os direitos religiosos, de viagem, de propriedade privada. Essas liberdades são multiplicadoras de outros direitos. É óbvio que sem eleições multipartidárias qualquer democratização é incompleta mas esse passo deve ocorrer no final e não no início do processo democratizador. As eleições multipartidárias sem estabilizadores tendem a criar polarizações e violência.

Como hispânico a viver no Texas, como vê o futuro das populações de cultura e língua espanhola nos Estados Unidos e da relação dos Estados Unidos com a América Latina?

A eleição de Trump culpa os imigrantes hispânicos, na sua maioria mexicanos, de uma suposta perda de terreno dos Estados Unidos frente a outros países. É um mau diagnóstico que produz tensões trágicas com expressões racistas e xenófobas. Mas, no espaço de um lustro, vários estados dos maiores da União Americana terão uma maioria de minorias, com predomínio hispânico. Na Califórnia, Texas, Florida e Nova Iorque há distritos escolares inteiros onde os hispânicos são a maioria esmagadora. A fronteira política está no Rio Grande mas os Estados Unidos são o segundo país em número de falantes do espanhol, com 41 milhões que têm esta língua como idioma materno e 11,6 milhões mais que o falam com limitações.

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