Sánchez ignora última proposta de Iglesias e falha investidura

O líder socialista partiu para a segunda votação sabendo que a Unidas Podemos se ia abster, o que impossibilitava a sua investidura. Mas, no discurso, Iglesias propôs renunciar à pasta do Trabalho se tivesse as políticas ativas de emprego. O PSOE lembrou que isso é competência das Comunidades Autónomas.

"Lamento muito constatar que continua o bloqueio parlamentar", disse o líder socialista, Pedro Sánchez, que chegou à segunda votação do debate de investidura sem o apoio crucial da Unidas Podemos e, por isso, sabendo que ia perder. "Se para ser primeiro-ministro tenho que renunciar aos meus princípios, não serei primeiro-ministro agora", defendeu durante o discurso diante dos deputados.

Sánchez conseguiu, esta quinta-feira, os mesmos 124 votos "sim" que tinha conseguido na votação de terça-feira. Mas teve também 155 votos "não", quando precisava de maioria simples (isto é, mais "sim" do que "não"). Houve ainda 67 abstenções.

A Unidas Podemos anunciou poucos minutos antes do início do debate que ia abster-se durante o voto, tal como na primeira votação na terça-feira. Mas, no seu discurso, o líder da Unidas Podemos, Pablo Iglesias, ainda fez uma última proposta: "Renunciamos ao Ministério do Trabalho se vocês nos derem as políticas ativas de emprego", afirmou, dizendo que ainda havia tempo para desbloquear a situação.

Na resposta, a porta-voz do PSOE, Adriana Lastra, lembrou que essa matéria é competência das Comunidades Autónomas. "Você quer conduzir sem saber onde está o volante?" E acrescentou: "Esta é a segunda vez que você vai impedir que Espanha tenha um governo de esquerdas."

Quando começou a votação ficou claro que os deputados da Unidas Podemos se iam abster, o que impediu a eleição de Sánchez. Na terça-feira precisava de maioria absoluta, ou seja, 176 votos, mas só teve 124 (os 123 do PSOE e o do Partido Regionalista da Cantábria).

O apoio do partido de Iglesias era fundamental para o líder socialista ser investido chefe do governo, com Sánchez a ter o voto contra de Partido Popular, Ciudadanos, Vox, Junts per Catalunya, Navarra Suma e Coligação Canárias. As abstenções vieram da Unidas Podemos, do Partido Nacionalista Basco, do Compromís, da Esquerda Republicana da Catalunha e do Bildu.

O prazo de dois meses para conseguir um acordo e ir a um novo debate de investidura começou na votação de terça-feira, com o atual Congresso a ter até 23 de setembro para conseguir uma investidura (Sánchez tem defendido que não cederá mais a Iglesias). Caso não seja possível acordo, a 24 de setembro será dissolvido o Congresso e convocadas novas eleições para 10 de novembro.

Sánchez e os ataques a Iglesias

Sánchez lembrou, no seu discurso no Congresso, que para vencer precisava precisametne do acordo com o "sócio prioritário", Unidas Podemos, e a abstenção de um dos "partidos constitucionalistas", referindo-se ao Partido Popular e Ciudadanos. Explicou sempre que tentou não estar dependente dos partidos independentistas catalães.

"Devo dizer que entre forças de esquerda a investidura devia ter estado garantida desde o primeiro dia. Com a atual aritmética parlamentar, são precisos acordos. Um acordo que não foi possível. Sinto muito pela histórica oportunidade que se esfuma de incorporar uma força de esquerdas à esquerda do PSOE", disse na sua intervenção.

No discurso, Sánchez criticou a posição do líder da Unidas Podemos, acusando Iglesias de ter deixado o programa de governo para segundo plano. "Existem grandes coincidências no programa social, ecológico, feminista com o programa da Unidas Podemos. Nunca houve problemas de programa que impedissem o acordo", explicou, dizendo que "o problema foram os ministérios".

Sánchez critica o facto de Iglesias ter rejeitado os ministérios que lhe ofereceu, quatro pastas "de alto conteúdo social", considerando que foi uma proposta "sensata". E lembrou: "Não conheço precedente de um dirigente de esquerdas que se sinta humilhado diante da proposta de uma vice-presidência."

"Tenho aspirações a presidir ao governo, mas não a qualquer preço nem qualquer governo. É preciso um governo coerente e unido, não dois governos num governo", lança Sánchez diretamente para Iglesias, que acusou de querer controlar o governo.

Dizendo que o líder da Unidas Podemos lhe disse na sexta-feira que ele não seria primeiro-ministro, Sánchez afirma que "se para ser primeiro-ministro tenho que renunciar aos meus princípios então não serei primeiro-ministro agora". E acrescentou, "entre a presidência do governo e as minhas convicções, escolho as minhas convicções em vez de um governo que não beneficia Espanha".

"Quis ser leal aos meus princípios. Espanha superou unida as piores crises da sua história e voltará a fazê-lo outra vez. Voltará a superar os seus maiores desafios. Aconteça ou que acontecer hoje nesta votação, Espanha pode ter no PSOE a força para unir Espanha", concluiu Sánchez.

Pablo Iglesias faz última proposta a Sánchez

O líder da Unidas Podemos, ao subir à tribuna, acusa Sánchez de nunca ter tratado o seu partido, possível sócio de governo, com respeito. "É muito difícil negociar em 48 horas o que não se quis negociar em 80 dias", num tom sombrio. "É muito difícil negociar um governo de coligação a contrarrelógio e com contínuas fugas de informação para a imprensa", acrescentou.

Iglesias acusa os socialistas de divulgarem o documento das propostas da Unidas Podemos, mudando contudo a palavra "propostas" para "exigências".

"Aceitámos tudo o que nos pediram, até um veto pessoal sem precedentes. Só lhes pedimos uma participação proporcional aos nossos votos", disse Iglesias, que fez desde a tribuna uma última proposta. "Renunciamos ao Ministério do Trabalho se vocês nos derem as políticas ativas de emprego", anunciou, dizendo que ainda há tempo para salvar a sessão de investidura.

Iglesias explicou que a proposta foi feita depois de ter recebido uma mensagem de alguém do PSOE.

Na contagem decrescente para o debate, Unidas Podemos tinha lançado uma nova proposta aos socialistas para garantir o seu voto positivo e um governo de coligação de esquerdas, mas Sánchez recusou ceder mais.

Adriana Lastra: PSOE fechou o debate

"Hoje não é um bom dia. Não é para ninguém que neste país se considere progressista", lançou a porta-voz do PSOE no Congresso, para fechar o debate antes da votação, agradecendo a todos os que tentaram que Espanha tivesse um governo que os espanhóis elegeram.

Lastra lembrou a Iglesias que ele não ganhou as eleições e que, por isso, não podia querer controlar metade do orçamento e quase todas as fontes de rendimento.

"Senhor Iglesias, na última terça-feira estendemos-lhe a mão. Negou-se a assumir o resultado eleitoral. Negouc-se porque em privado nos exigia controlar mais da metade dos gastos públicos", disse, enquanto Iglesias negava com a cabeça. "Também exigia controlar todas as fontes de redimento e se não, não havia mais nada para falar. Chama a isso negociação? O problema é que nós queremos negociar de boa fé, mas não vamos aceitar chantagens".

"Tudo tem um limite e você ultrapassou-o. Precisamos sócios leais, não que vocês se apresente como o guardião das essências da esquerda. Esta é a segunda vez que você vai impedir que Espanha tenha um governo de esquerdas", disse Lastra, que lembrou que a Unidas Podemos foi quarta apenas nas eleições e que, juntos, não somam uma maioria absoluta.

Em relação à última proposta de Iglesias, lembrou-o que as competências de política ativa de emprego estão nas comunidades autónomas. "Você quer conduzir sem saber onde está o volante?"

Lastra acusou ainda Iglesias de não querer um governo de coligação, mas um "governo paralelo".

Pablo Casado: "negociação vergonhosa"

O líder do Partido Popular, Pablo Casado, foi o segundo a intervir depois de Sánchez, começando a intervenção dizendo que este e Iglesias lideraram uma "negociação vergonhosa e, pior do que tudo, para nada". Falou numa luta de poder que não teve em conta Espanha e que mostrou que os socialistas não são capazes de pactuar para construir, só para destruir.

Dizendo que Sánchez só quis negociar com o Podemos, a esquerda radical e os independentistas, Casado lembra que os socialistas queriam a abstenção do PP. "Você pedia-nos que assinássemos um cheque em branco e isso não o podemos fazer", defendeu Casado.

"Não podemos assinar um cheque em branco pelas famílias que temem que acabe com a liberdade de educação, pelos seis mil milhões de impostos que pretendem aumentar contra a classe média. Não pode continuar a jogar à roleta russa com o nosso futuro e que, além disso, sejamos nós a dar a bala", disse o líder do PP.

Albert Rivera: "dividir o saque"

O líder do Ciudadanos, Albert Rivera, acusou socialistas de terem tratado o país como um "saque". "Espanha não é um saque que se possa dividir, é a nossa nação", defendeu na sua intervenção, acusando a esquerda de ser um "bando".

"O bando não se pôs de acordo por um ministério. Como vão governar se não são capazes de se por de acordo por um ministério? Os espanhóis não merecem este espetáculo, nem ser governados por um bando como o seu?", afirmou.

"Não lhes importa a política. Só lutaram pelos lugares. A vocês só vos separa o ego. E Espanha merece que um governo", defendeu.

Rivera reitera que Sánchez é um "mau primeiro-ministro para Espanha" e que continuará a votar contra o plano de Sánchez para o país e o seu bando à frente do governo.

Santiago Abascal: "brigam por lugares"

O líder do Vox, Santiago Abascal, sobe à tribuna para dizer que socialistas e Unidas Podemos "não discutem política, apenas brigam por lugares e escritórios".

"Nunca apoiaremos um governo abertamente desejado pelo separatismo. Não apoiaremos nunca um governo que ponha em risco a ordem constitucional", defendeu. "Faremos oposição frontal, sem quartel, se conseguirem pôr a vossa marioneta no poder".

Gabriel Rufián: "vamos arrepender-nos todos"

O porta-voz da Esquerda Republicada da Catalunha (ERC), Gabriel Rufián, pediu a Sánchez e a Iglesias que olhem para a direita e vejam a felicidade do partidos conservadores. "Estão encantados da vida. Estão aplaudindo com as orelhas. Se eles tivessem que negociar, já teriam até concordado nos bónus do salário", defendeu.

"Vamos arrepender-nos todos, toda a esquerda, vamos arrepender-nos", acrescentou, dizendo que "setembro complica a vida a todos". Caso haja um novo debate de investidura nessa altura, será mais difícil a abstenção dos independentistas catalães da ERC já que já será conhecida a sentença do julgamento em que o líder do partido, Oriol Junqueras, é arguido e pelo qual está preso.

"Senhor Sánchez, foi um erro o veto a Pablo Iglesias. Senhor Iglesias, é um erro não aceitar três, quatro ou cinco ministérios. Entrem no governo e demonstrem que são melhores. Vamos arrepender-nos todos dessa intransigência", avisou.

Aitor Esteban: "não há programa conjunto"

O deputado do Partido Nacionalista Basco (PNV), Aitor Esteban, lamenta a forma como decorreram as negociações. "O PSOE deixou passar demasiado tempo. Deveria ter procurado mais empatia, mais cumplicidade. Nem entendo que se desista antes do tempo. Mas, senhor Iglesias, também tem que aceitar que é uma força política sem experiência. É preciso criar uma imagem e uma confiança primeiro".

Falando da proposta de última hora da Unidas Podemos, diz que se o problema são só as políticas de emprego, que existe tempo para chegar a acordo sobre isso. "Não há um programa conjunto, que é o que queríamos ver. Não trabalharam num programa conjunto", referiu.

E avisa Iglesias que está prestes a causar uma rutura entre Podemos e Esquerda Unida, os dois partidos a aliança.

"Temos todos que aprender com o fracasso, mas não nos podemos dar por vencidos", indicou.

Grupo misto

O grupo misto inclui todos os restantes partidos com assento parlamentar.

Laurra Borràs, porta-voz dos independentistas catalães do Junts per Catalunya, acusou Sánchez de ter um problema de convivência e disse que é "muito pouco digno de presidir" ao governo. "Os nossos companheiros são presos políticos, mas você é um político preso", indicou. E avisou: "Amanhã você vai acordar, senhor Sánchez, e nós os independentistas vão continuar aqui".

O representante dos bascos do Bildu, Oskar Matute, diz que o voto do seu partido não era de apoio a Sánchez, mas era uma garantia de que PP, Ciudadanos e Vox não teriam espaço. "Os votos do Bildu são um compromisso antifascista da ultradireita azul, verde ou laranja".

A representante da Coligação Canária, Ana Oramas, disse que é preciso "fazer um esforço nestes momentos". Lembrou que os eleitores já deram a sua opinião e que agora é tempo de os políticos fazerem o seu trabalho: "Deixem-se de assessores e estratégias." Pediu ainda ao socialistas "humildade" para negociar. "Um governo não se negoceia em três dias. A Alemanha demorou três meses. Negoceie, faça o esforço e faça-o com humildade", disse.

O representante de Navarra Suma, Carlos García Adanero, usou as primeiras palavras para criticar o Bildu, lembrando que este partido continua sem condenar o terrorismo da ETA. "Em Navarra há duas opções. Um governo constitucionalista ou um governo do PSOE com Bildu. Se não corrigir a posição, mostrará que está muito mais cómodo com os independentistas. Você aí terá que decidir e demonstrar onde está". Foi aplaudido pelas bancadas do PP e do Ciudadanos.

Joan Baldoví, pelo Compromís, pediu "respeito" a Sánchez, lembrando a música de Aretha Franklin. "Teremos sempre agosto e setembro e ai estará o Compromís se quiser negociar com lealdade", afirmou.

Mazón Ramos, do Partido Regionalista da Cantábria, reiterou o voto "sim" a Sánchez, tal como na terça-feira, dizendo que está satisfeito com o trabalho desenvolvido com os socialistas nos últimos meses. "Queremos dar-lhe o nosso apoio moral", indicou. "Há tempo para que toda a gente repense a sua posição. Não é assim tão complicado."

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