Sánchez e Iglesias assinam acordo. Direita lamenta solução "radical"

Líder socialista e dirigente do Podemos finalizaram um princípio de acordo para uma coligação, que algumas fontes dizem incluir uma vice-presidência para o próprio Iglesias. Independentistas catalães da ERC dizem "não" e exigem diálogo.

O líder socialista, Pedro Sánchez, e o da aliança Unidas Podemos, Pablo Iglesias, assinaram um acordo para a formação de um "governo rotundamente progressista" para "uma legislatura para quatro anos".

Sánchez e Iglesias, que em conjunto perderam dez deputados nas eleições de domingo em relação às de 28 de abril, estiveram reunidos no Congresso dos Deputados e convocaram a imprensa para uma declaração conjunta e a assinatura do acordo.

"O compromisso de ambas as formações era desbloquear a situação em Espanha", lembra Sánchez, antes ainda da assinatura, que apelidou de "emocionante e importante".

Iglesias anunciou então o pré-acordo para "formar um governo progressista em Espanha", que combina a "experiência do PSOE com a coragem do Podemos". E disse espera que esta seja "a melhor vacina" contra a extrema-direita. "É uma honra trabalhar para os nossos compatriotas. Pedro Sánchez pode contar com a nossa lealdade. Vamos trabalhar para conseguir uma maioria parlamentária necessária para a investidura e a legislatura. Vamos trabalhar para formar um governo", acrescentou.

Já depois da assinatura, Sánchez voltou a tomar a palavra. "É um acordo de legislatura para quatro anos", referiu o líder socialista. "O acordo nasce com o propósito de se abrir a outras forças políticas", referiu, dizendo que abrirá uma ronda de negociações com outras forças políticas para ter os apoios de outros partidos. "Não há motivos para mais bloqueios", afirmou.

Um acordo entre PSOE e Unidas Podemos continua a ser insuficiente para alcançar a maioria absoluta e garantir a investidura de Sánchez. Os socialistas elegeram 120 deputados no domingo, enquanto a Unidas Podemos elegeu 26 (contando com mais nove das suas alianças regionais). Ou seja, têm 155 deputados, sendo a maioria absoluta de 176.

"Espanha precisa de um governo sólido", acrescentou Sánchez. "Este novo governo vai ser rotundamente progressista porque estará integrado por forças progressistas e porque vai trabalhar pelo progresso de Espanha e de cada um dos espanhóis. A única coisa que não terá lugar será o ódio e o confronto entre espanhóis", referiu.

A confirmar-se será o primeiro governo de coligação em Espanha desde o regresso da democracia em 1976.

Sánchez agradeceu a Iglesias a sua "predisposição" para chegar a acordo de governo, parecendo ter já esquecido e deixado para trás as discussões entre ambos depois das eleições de abril e das tentativas frustradas para chegar a acordo para evitar a repetição eleitoral.

A agência EFE diz que o acordo prevê o cargo de vice-primeiro-ministro para o líder do Podemos, mas não se falou em cargos na conferência de imprensa, que acabou com um abraço entre os dois líderes.

Dez eixos prioritários

O ElDiario.es revelou ainda antes da conferência o alegado texto do acordo que inclui dez eixos prioritários. O primeiro é "consolidar o crescimento e a criação de emprego", o segundo é "trabalhar pela regeneração e lutar contra a corrupção". O terceiro é "luta contra as alterações climáticas" e o quarto "fortalecer as pequenas e médias empresas".

O quinto eixo passa pela "aprovação de novos direitos que aprofundem o reconhecimento da dignidade das pessoas à morte digna", enquanto o sexto é "assegurar a cultura como direito e combate a precariedade no setor". O sétimo ponto diz respeito às políticas feministas, enquanto o oitavo é reverter o despovoamento.

O nono ponto é "garantir a convivência na Catalunha", dizendo-se que o governo de Espanha terá como prioridade garantir a convivência e a normalização da vida política. "Com esse fim, irá fomentar-se o diálogo na Catalunha, procurando fórmulas de entendimento e encontro, sempre dentro da Constituição. Também se fortalecerá o Estado das autonomias para assegurar a prestação adequada dos direitos e serviços da sua competência. Garantiremos a igualdade entre todos os espanhóis".

O último eixo prioritário passa pela "justiça fiscal e equilíbrio orçamental", sendo que na versão final do texto, divulgada nas redes sociais, inclui uma última frase. "O governo promoverá políticas sociais e novos direitos em relação aos acordos de responsabilidade fiscal de Espanha com a Europa, graças a uma reforma tributária justa e progressiva que nos aproxime da Europa e na qual se eliminem privilégios fiscais".

Os detalhes do acordo serão conhecidos nos próximos dias, lê-se no texto, dizendo que vai decorrer a negociação para completar "a estrutura e funcionamento do novo governo que se irá reger por princípios de coesão, lealdade e solidariedade governamental, assim como pela idoneidade no desempenho das funções".

O Podemos reagiu nas redes sociais ao acordo, escrevendo: "As coisas importantes não saem à primeira,"

O anúncio do pré-acordo entre PSOE e Unidas Podemos levou à queda da bolsa espanhola.

"Agora mesmo a nossa resposta é um não"

O governo de coligação entre Sánchez e Iglesias precisará da abstenção dos independentistas catalães para ter hipótese de passar à segunda votação, quando só precisa de uma maioria simples (mais votos "sim" do que "não"). Do lado da Esquerda Republicana da Catalunha (ERC), a primeira resposta não parece contudo positiva.

"Agora mesmo a nossa resposta é um não, agora mesmo é um não ao que nos apresentaram", disse a porta-voz da ERC, Marta Vilalta. "Se não mudam de posição não há nada a fazer", acrescentou, referindo-se à exigência de criação de uma mesa de diálogo com o governo catalão e o reconhecimento de que na Catalunha há um conflito político.

Já o Junts per Catalunya foi mais forte na sua recusa: "Enquanto houver presos, exilados, e não se possa falar do direito de autodeterminação nós não vamos investir Pedro Sánchez", disse a porta-voz do partido no Congresso espanhol, Laura Borràs.

Alegria à esquerda

Alberto Garzón, líder da Esquerda Unida (a outra parte da aliança Unidas Podemos), confirmou o acordo no Twitter: "Alcançámos um acordo para um governo de coligação entre Unidas Podemos e PSOE. Hoje é um dia de festa. Obrigado a toda a militância que lutou para que pudéssemos chegar aqui. Demonstrámos que podemos"; indicou.

O líder do Más País, Íñigo Errejón, congratulou-se com a notícia do pré-acordo, ainda antes de serem conhecidos os pormenores. A nova formação política de esquerdas elegeu dois deputados (enquanto a sua aliada regional valenciana tem mais um).

"Nunca é tarde se a notícia é boa. Os espanhóis deram uma segunda oportunidade a um governo progressista para fazer um país mais justo. E é preciso cumprir com esse mandato. Saudamos o pré-acordo e trabalharemos para que consiga a maioria", escreveu no Twitter.

O deputado por Valência do Más País - Més Pais, Joan Baldoví, também se mostrou favorável a aprovar este pré-acordo. "Més Compromís vai sempre contribuir para um acordo de esquerda que satisfaça como é necessário as exigências valencianas. Agora é hora de concretizar", reagiu também no Twitter.

A Coligação Canária também vai no mesmo sentido de poder facilitar a investidura de Sánchez, apesar de em abril terem sido contra a ideia de um governo com o Podemos, enquanto o Bloco Nacionalista Galego também já tinha mostrado vontade de colaborar para que haja um governo de progresso.

"Comunismo bolivariano" e "radical", lamenta a direita

Quem não conteve a sua irritação com o anúncio de Sánchez e Iglesias foi o vencedor das eleições (em relação às anteriores), Santiago Abascal. "O PSOE abraça o comunismo bolivariano, os aliados de um golpe de Estado, no meio de um golpe de Estado. Vamos responsabilizá-lo por todos os danos que causarem à coexistência e à ordem constitucional", escreveu o líder da formação da extrema-direita Vox, que elegeu 52 parlamentares.

Também o líder do Partido Popular, Pablo Casado, lamentou o compromisso alcançado à esquerda. "Se esta aliança for avante teremos de recordar que estivemos sempre à altura e que foi ele [Pedro Sánchez] que radicalizou a sua posição, porque nem nos chamou", disse aos jornalistas na sede da formação conservadora, que reforçou o segundo lugar nas eleições, com a eleição de 88 deputados.

"Para esta viagem, não eram precisos alforges", disse Casado, usando uma expressão em espanhol que basicamente significa que "se era para isto, mais valia termos ficado em casa".

Desta forma, Casado conclui que o PSOE "fecha a porta com estrondo a qualquer colaboração com o PP". E, como tal, declarou que o programa dos partidos de esquerda são "incompatíveis" com o seu partido, pelo que não contarão com o seu voto na investidura.

O PP estava numa reunião do seu comité executivo, na qual chegou a ser proposto um eventual governo de concentração entre PP, Ciudadanos e PSOE, quando foi revelada a existência de um pré-acordo entre Sánchez e Iglesias, tendo o tema depois caído.

A porta-voz do PP no Congresso, Cayetana Alvarez de Toledo, insiste na ideia de um "governo de concentração nacional", com PP e Ciudadanos.

"Diante do desafio insurrecional, diante da crise económica, diante da ameaça de um governo com o Podemos com o aval dos sediciosos, reitero que disse no Comité Executivo do meu partido: os espanhóis merecem um governo de concentração nacional", escreveu no Twitter.

O Ciudadanos, cujo líder Albert Rivera se demitiu após perder 47 deputados nestas eleições, também já rejeitou o acordo, dizendo que não podem apoiar que Sánchez e o Podemos "tenham as rédeas do governo de Espanha". Num comunicado, acrescentam: "É nefasto e contrário aos interesses da maioria dos espanhóis", indicaram, apelando "à responsabilidade do PSOE e do PP para chegar a um acordo moderado e constitucionalista com o Ciudadanos baseado em pactos de Estado bons" para Espanha.

"Ainda estamos a tempo que Sánchez retifique. Num momento como este, apelamos à responsabilidade do PSOE e PP para chegar a um acordo moderado e constitucionalista com o Ciudadanos baseado em pactos de Estado bons par a o nosso país. Pelo bem de Espanha", escreveu no Twitter Inés Arrimadas, favorita a suceder a Rivera à frente do partido.

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