Salário, idade, profissão e não só distinguem coxinhas de petralhas

Num país cada vez menos mas ainda estupidamente desigual, crise política recente expõe os dois "brasis" do Brasil.

A radicalização entre os pró-governo e os pró-impeachment, que começou a partir da campanha eleitoral de 2014, se agudizou por causa do impasse político em Brasília e da crise económica ao longo de 2015 e chegou ao auge com a condução coercitiva de Lula da Silva, a sua nomeação para ministro de Dilma Rousseff e a divulgação das escutas telefónicas pelo juiz Sérgio Moro, expõe dois "brasis" - os dois "brasis" que sempre coexistiram num país que, apesar de cada vez menos, ainda é estupidamente desigual.

Segundo dados recolhidos pelo instituto Datafolha, a que o DN acrescentou outros elementos, o perfil dos manifestantes a favor e contra a queda da presidente Dilma Rousseff que protestaram na Avenida Paulista nos últimos dias 13 e 18 é distinto - mesmo que a maioria more na mesma região, o Sudeste, no mesmo estado, São Paulo, e na mesma cidade - se comparados os perfis-tipo de um coxinha (pró-impeachment) da abundante São Paulo com o de um petralha (anti-impeachment) do carente Nordeste o resultado seria ainda mais desigual.

Na Avenida Paulista, os coxinhas são, segundo as cerca de 2000 entrevistas dos pesquisadores, mais velhos, em média, e ganham salários mais elevados, embora a sondagem não revele diferenças no nível de escolaridade em relação aos petralhas. A profissão mais comum entre os que querem a destituição da presidente é "empresário", com 12 por cento, quando em São Paulo apenas dois por cento afirma ter essa ocupação. Já os que gritam "não vai ter golpe" são na sua maioria funcionários públicos: 15 por cento, contra três por cento no geral paulistano.

Na hora de votar

A tradução eleitoral dos dois grupos é difusa. Do lado dos petralhas, logicamente, a maioria apoiaria Lula. Mas houve grupos na manifestação de sexta-feira que é crítica do governo - só que é mais crítica ainda da oposição.

Aécio recolheria boa parte dos votos dos coxinhas que estiveram na Paulista há uma semana - quase todos eles foram seus eleitores na segunda volta de 2014 contra Dilma - mas as vaias de que foi alvo provam que a população está cansada dos políticos tradicionais.

O MANIFESTANTE TIPO PRO-GOVERNO
Idade média: 38,9 anos
Salário: 51% ganha de 660 a 2200 euros
Lema: "Não vai ter golpe!"
Traje: camisa da cor do PT, encarnada
Símbolo: bandeira do PT
Alcunha: Petralha (jogo de palavras entre petista e irmãos metralha)
Em quem pode votar em 2018: Lula (ou Marina Silva ou um outsider de esquerda)
Teoria da conspiração: No dia da condução coercitiva de Lula à delegacia de Congonhas, um operador de imagem não identificado disse ter "ouvido algo" e visto um jato preparado para descolar com o objetivo, segundo ele, de levar Lula diretamente para a prisão, projeto abortado por causa da comoção gerada pelo caso. A história circulou em jornais digitais pro-governo e chegou, mesmo sem provas, a colunistas sérios de jornais de referência.

O MANIFESTANTE TIPO PRO-IMPEACHMENT

Idade média: 45,5 anos
Salário: 48% ganha de 1100 a 4500 euros
Lema: "Impeachment já!"
Traje: camisa da seleção brasileira, verde e amarela
Símbolo: Pixuleko (boneco de Lula vestido de presidiário)
Alcunha: Coxinha (betinho)
Em quem pode votar em 2018: no candidato do PSDB (Aécio, Alckmin ou Serra) ou num outsider de direita, como Bolsonaro
Teoria da conspiração: No dia da manifestação pro-impeachment, a coluna "horóscopo" do jornal Folha de S. Paulo sugeriu a quase todos os signos para aproveitar o dia para ficar em casa. Barbara Abramo, a autora das previsões astrológicas que também é socióloga, recebeu centenas de cartas a insultá-la. A ombudsman do jornal lembrou que Abramo costuma sugerir o mesmo todos os domingos.

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