Sai o polícia bom e entra a polícia má na Casa Branca

Após os afetos de Macron, a dureza de Merkel: Donald Trump recebe pressões para não entrar em guerra comercial com a Europa nem em sair do acordo com o Irão

Deixou críticas e alertas para o discurso no Congresso dos EUA, mas dos três dias da visita de estado vão ficar as imagens surpreendentes de um Emmanuel Macron beijoqueiro para com Donald Trump, o qual correspondeu aos afetos do presidente francês. Já da visita de Angela Merkel, que hoje se realiza, espera-se outra abordagem, mais dura e pragmática.

Como num policial em que representam os papéis de detetives que interrogam o suspeito à vez, com abordagens opostas, Macron e Merkel querem o mesmo do presidente norte-americano: que ceda nas ameaças de impor barreiras comerciais ao aço e alumínio europeus e que não abandone o acordo nuclear com Teerão.

Os dirigentes europeus encontraram-se em Berlim, na quarta-feira da semana passada, com o objetivo de delinearem uma frente comum para "protegerem e conservarem o grande tesouro" que é a relação transatlântica, como definiu Merkel.

"Em definitivo, a visita não será fácil", anteviu Peter Beyer, membro da União Democrata-Cristã (CDU) de Merkel, coordenador das relações transatlânticas. Questionado pela Reuters sobre a diferença de tratamento da visita de estado de três dias do presidente francês ou dos encontros de lazer com o primeiro-ministro japonês Shinzo Abe para um encontro de trabalho de 20 minutos na Sala Oval (seguido de almoço), Beyer disse: "Não há tempo a perder com cerimónias. Para ser honesto, não consigo imaginar a chanceler a jogar golfe."

E acrescentou: "Acho que é preciso vermos as visitas de Macron e de Merkel como uma só". Prova de que sabia do que falava, declarou antes da visita do francês: "Macron cuidará das fotos bonitas e fará o seu papel. Merkel fará o trabalho duro e fará o seu papel."

A chefe do governo alemão não terá problemas em desempenhar esse papel. No primeiro encontro na Casa Branca a falta de química foi tal que não houve o habitual aperto de mãos para a posteridade. E, por outro lado, perante uma opinião pública alemã especialmente crítica de Trump não cairia bem essa aproximação. "Para Merkel é muito importante, em termos internos, não se mostrar muito próxima de Trump", comenta à AP o analista Jan Techau, do think thank German Marshall Fund of the United States.

O comércio será um dos temas principais na reunião: a isenção das tarifas dos EUA sobre as importações de aço e alumínio concedidas à UE expira no dia 1 de maio.

As taxas aduaneiras podem afetar a economia alemã, que vive das exportações. "Na Alemanha, 25% dos empregos dependem das exportações. No setor industrial, é mais do que metade", diz Dieter Kempf, presidente da associação industrial do país. "A ameaça das tarifas é um ácido teste às relações transatlânticas", comenta.

Em Bruxelas prepara-se uma resposta caso Trump não mude de ideias: tabaco, bourbon, motociclos serão alguns produtos made in USA que podem sofrer um aumento nas taxas ao entrarem na União.

Outro tema quente será o acordo nuclear com o Irão. Trump deu aos signatários europeus (UE, Alemanha, França e Reino Unido) um prazo até 12 de maio para darem uma solução "as terríveis falhas" do acordo nuclear de 2015, caso contrário volta a aplicar sanções ao Irão.

Merkel vai defender a manutenção do acordo - em sintonia com Macron, deve concordar com a extensão do acordo para outras áreas como o programa de mísseis balísticos de Teerão, ou em restringir a política externa do Irão no Médio Oriente. Por outro lado, irá convencer Trump de que a Alemanha está a cumprir o seu papel na política externa e de defesa. A Administração Trump já se queixou várias vezes de que os parceiros europeus da NATO têm de gastar 2% do PIB na defesa.

Trump em Londres sexta-feira, 13

Donald Trump vai encontrar-se com a primeira-ministra britânica Theresa May no dia 13 de julho. A visita a Londres foi anunciada pelo embaixador britânico em Washington, Kim Darroch, no Twitter. Para já apenas se sabe que vão ter "conversações bilaterais" - Downing Street fez saber que os pormenores ainda vão ser definidos. Enquanto presidente, Donald Trump esteve em sete estados europeus, mas ainda não pisou solo britânico.

Já Theresa May foi a primeira líder em visita oficial ao presidente norte-americano, uma semana após a tomada de posse. A governante chegou a endereçar um convite para uma visita de estado, mas a onda de protestos que causou levou ao adiamento sine die. Trump também cancelou a sua presença na inauguração da nova embaixada norte-americana em Londres.

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