Safari africano de Modi começa em Moçambique com negócios na mira

Primeiro-ministro tem encontro previsto com presidente Nyusi e comunidade indiana. Segue-se a África do Sul, Tanzânia e Quénia

Quando Vasco da Gama chegou à ilha de Moçambique em 1498 já por ali andavam comerciantes das Índias a tratar dos seus negócios. Não espanta assim que o primeiro-ministro indiano Narendra Modi tenha agora escolhido Maputo, a capital moçambicana, para iniciar hoje aquilo a que os media chamam o seu safari africano e que o irá levar ainda à África do Sul, Tanzânia e Quénia. Nos últimos anos, um quarto do investimento indiano na África Oriental foi para Moçambique - 7,1 mil milhões de euros -, um caminho que Modi pretende reforçar, tendo encontros marcados não só com o presidente Filipe Nyusi mas também com a comunidade indiana, cerca de 20 mil pessoas.

Na primeira visita a Moçambique de um chefe do governo indiano em 34 anos, Modi deve apostar na cooperação energética entre os dois países, na segurança marítima e no comércio. Nos últimos cinco anos as trocas comerciais entre Índia e Moçambique multiplicaram-se por cinco, situando-se atualmente nos 1800 milhões de euros anuais. Há várias empresas indianas a operar em Moçambique, entre elas a Tata, no aço, ou a Coal India Limited, no carvão.

Com esta visita, que inclui um discurso no Parlamento de Maputo, Modi retribui a ida de Nyusi a Nova Deli em 2015 para participar no Fórum Índia-África. Nesse encontro em que estiveram presentes representantes de 54 nações africanas, Modi anunciou uma linha de crédito de nove mil milhões de euros para países africanos ao longo de cinco anos. O setor agrícola estará no centro dos negócios na agenda do primeiro-ministro indiano. Rudra Gaurav Shresth, alto-comissário indiano para Moçambique, explicou ao Business Standard que a compra de sementes - grão, lentilhas, feijão ou ervilhas secas - a Moçambique irá permitir aumentar a produção nesse país e colmatar a falta destes alimentos na Índia.

Modi chega hoje a um Moçambique em plena instabilidade política, com vários confrontos e ataques no centro do país a veículos civis e militares, que o governo atribui à ala armada da Renamo, o principal partido da oposição. As negociações de paz estão a ser preparadas, com os mediadores internacionais esperados até dia 11. A Renamo, liderada por Afonso Dhlakama, recusa-se a aceitar os resultados das eleições de 2014, ameaçando governar em seis províncias onde reivindica vitória no escrutínio.

Principalmente dedicada aos negócios, a comunidade indiana de Moçambique é oriunda sobretudo de Goa, Damão e Diu, os territórios que Portugal teve na Índia até 1961, mas também do Gujarat, o estado indiano onde Nyusi estudou e do qual Modi foi governador entre 2001 e a sua eleição para primeiro-ministro, em 2014 .

Interesses comuns

Eleito muito graças à fama de ser responsável pelo milagre económico do Gujarat, Modi tem apostado nos últimos dois anos numa política externa muito virada para os negócios. Com uma economia que em 2015 cresceu 7,6% e que segundo o Fundo Monetário Internacional deverá continuar a crescer 7,5% este ano e no próximo, a Índia procura não só afirmar-se como um parceiro comercial forte, mas também garantir o seu lugar como potência mundial.

Sétima economia mundial, a Índia partilha com a África do Sul - segunda paragem no "safari" de Modi - e os restantes países dos BRICS (Brasil, Rússia e China) o desejo de mais protagonismo internacional. O direito a um lugar de membro permanente no Conselho de Segurança da ONU deverá ser um dos assuntos em cima da mesa no encontro de Modi com o presidente sul-africano, Jacob Zuma. À espera de Modi em Joanesburgo deverão estar mais de dez mil pessoas, estando prevista uma fusão de danças indianas e sul-africanas, além de uma demonstração de ioga, que Modi pratica de forma assídua.

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