Rui Ferreira: "Raúl Castro ficará como um certo Deng Xiaoping"

Antigo jornalista d"O Independente, Rui Ferreira, de 58 anos, vive em Miami, onde colabora com o Diario Las Américas e com a Caracol Radio, da Colômbia. Está neste momento na capital cubana a escrever um livro sobre o processo de transição.

Raúl Castro deve continuar líder do Partido Comunista. Irá dar autonomia a Miguel Díaz-Canel?

A Constituição cubana dá-lhe certa autonomia no momento de implantar eventuais reformas e políticas de Estado. Mas a mesma Constituição também diz que o Partido Comunista é o "órgão reitor da sociedade" e Díaz-Canel é militante do partido. Díaz-Canel é considerado um "homem de Raúl Castro", que o promoveu a partir do momento em que o irmão adoeceu. Poderá haver uma certa autonomia para fazer vincar esta nova personalidade, que em grande parte constitui uma incógnita para a generalidade dos cubanos, mas também para levar a cabo esta transição sem grandes sobressaltos, que é a grande preocupação neste momento. De qualquer modo não vejo Díaz-Canel a governar sem consultar Raúl, que ficará como um certo Deng Xiaoping porque, eventualmente neste ano, deixará a presidência do partido.

Quais serão as prioridades para o novo líder?

Em primeiro lugar tornar-se popular junto das massas. Díaz-Canel é um líder popular nas duas províncias onde foi primeiro secretário do comité regional do Partido Comunista, mas não é muito conhecido no resto do país. Tem uma personalidade acessível, de conversa fácil. E, sobretudo, não carrega esse fardo que é o apelido Castro. Estou a ver o Díaz-Canel sair à rua e conversar com as pessoas de uma forma muito mais aberta do que faziam tanto Fidel como Raúl. Porém, herda um fracasso de Raúl, que foi não ter conseguido levar adiante totalmente as reformas económicas, entre elas a unificação das duas moedas. Este é o seu grande desafio. E para isto tem de vencer a resistência interna com que Raúl se defrontou. Em Cuba existe uma pesada máquina burocrática que resiste às reformas porque tem medo de perder os privilégios do poder.

O sistema monetário duplo e a relação com os EUA: qual destes temas pesa mais na política e na economia local cubana?

A primeira é meramente interna, e acabar com essa duplicidade vai ser um desafio enorme. De resto, a população está à espera disso. Para se ter uma ideia da confusão basta ter em conta que o chamado peso convertível tem duas cotizações, uma para o setor privado, incluindo os turistas, e outra para o setor económico estatal. Uma unificação da moeda não terá um impacto total na economia se o setor privado não puder importar diretamente o que necessita para se desenvolver. Este é um dos grandes travões à economia privada. O governo não tem falado deste atraso. Há duas razões possíveis. Uma é o impacto nos salários. O salário médio em Cuba são 31 dólares. Outra é qual será a cotização dessa conversão, porque de qualquer modo uma moeda unificada terá de ser convertível [em dólares]. Ficará em 24 por um, como se rege no setor privado? Ou será um por um, como se contabiliza no setor estatal? Se escolhem esta última, o salário médio dispara para 300 dólares, mas também corre-se o risco de aumentar o custo de vida.

E a relação com os EUA?

Em termos financeiros os Estados Unidos representam para os cubanos três mil milhões de dólares anuais de remessas dos imigrantes cubanos. Seria muito fácil aos EUA asfixiar Cuba se as proibisse. E Trump também não fez isso como tem pedido o setor radical do exílio cubano. A nível político, a relação com os EUA nesta era Trump vai caracterizar-se por um aumento da retórica verbal, mas não necessariamente na vida diária das pessoas.

Sem o apoio da Venezuela, que alianças ou acordos poderá a nova liderança tentar alcançar no plano internacional?

A Venezuela vai ficar sempre como um resíduo. Cuba já se está a virar para a Rússia e a China. O grande problema continuará a ser o petróleo, ainda não há um substituto garantido para o petróleo da Venezuela. Cuba precisa de mais investimentos, não só no turismo mas na infraestrutura industrial, e esses não aparecem. Nos últimos meses houve visitas de ministros da Arábia Saudita e do Qatar e a assinatura de acordos comerciais. Fala-se de um investimento da Arábia Saudita no turismo e o início de voos regulares do Médio Oriente para Havana.

A baixa demográfica representa um problema para o país?

É um assunto sério, porque cada dia nascem menos crianças e a população está a envelhecer. Neste momento é um tema tabu. Mas é, sem qualquer dúvida, um reflexo da pouca confiança que muitos cubanos têm no desenvolvimento da sociedade. Refletindo um pouco, talvez este seja o maior desafio de Miguel Díaz-Canel: convencer a população de que vale a pena viver numa Cuba sem os Castro.

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