Espanha: Sánchez ganha, Vox dispara e Rivera demite-se e deixa a política

Após os maus resultados nas eleições de domingo, o líder do Ciudadanos anuncia a demissão e deixa a política.

Após 13 anos à frente da formação centrista, Albert Rivera, de 39 anos, anuncia que se demite da liderança do Ciudadanos e que deixa a política, um dia depois do desaire eleitoral.

"Demito-me para que o partido tome as redes do centro-direita de Espanha", afirmou durante uma declaração à comunicação social. "Em coerência com o que sou, não creio que a minha demissão surpreenda. Seja justo ou injusto, é [a decisão] responsável. Foi o que me ensinaram os meus pais e os meus professores", justificou.

No domingo, o resultado das eleições revelou uma queda a pique do partido que só conseguiu 10 deputados (perdeu 47), ficando mesmo atrás dos independentistas da Esquerda Republicana da Catalunha (ERC), que conseguiu eleger 13 deputados (menos dois).

Rivera afirmou ser o único responsável pelos maus resultados, pelo que se demite da liderança do Ciudadanos. "Os êxitos são de todos, os maus resultados são do líder", afirmou. Anunciou depois que não iria assumir as funções de deputado nacional, o que fazia há quatro anos, e que deixa a vida política. "Desfrutei e aprendi muito, conheci gente maravilhosa pelo caminho e servi Espanha com humildade".

Afirmou-se orgulhoso pelo trabalho que fez, dizendo que foi feliz na política, mas há que "continuar a sonhar e a ser feliz". "A vida é muito mais do que a política", disse Rivera que quer agora dedicar mais tempo aos pais, à filha e à mulher.

"É o momento de unir os espanhóis", diz Rivera

Numa noite eleitoral em que os socialistas do PSOE voltaram a ganhar sem maioria absoluta, o Ciudadanos, de Albert Rivera, revelou-se o maior derrotado das eleições gerais espanholas.

"Os espanhóis quiseram mais Sánchez para esta legislatura, mas também quiseram mais Vox", reagiu Rivera no domingo à noite. "Foi um mau resultado sem paliativos e sem desculpas", acrescentou, dizendo que tem que assumir que o mau resultado é seu.

"Meti-me na política porque amo Espanha", afirmou ainda no domingo à noite, mas nesta segunda-feira de manhã anunciou a saída da liderança do Ciudadanos numa declaração à imprensa, depois de o ter feito na reunião extraordinária da Comissão Executiva Nacional do partido, em Madrid.

A escolha do novo líder e do rumo do partido será agora decidida num congresso extraordinário.

Na declaração que fez na manhã desta segunda-feira, Rivera citou o ex-presidente norte-americano Barack Obama para dizer que "se para ganhar tens de dividir as pessoas, vai ter um governo ingovernável". Uma afirmação que serviu de mote para apelar a uma solução governativa, para que não haja uma divisão no país. "É o momento de unir os espanhóis."

Com as eleições de domingo, o Ciudadanos passou a ser a quinta força política de Espanha, quando antes ocupava o terceiro lugar. Passou de 57 assentos parlamentares, conquistados a 28 de abril, para 10 deputados.

No total, o partido de Rivera perdeu 2,5 milhões de votos desde as últimas eleições.

No domingo, o PSOE, de Pedro Sánchez, ganhou as eleições, de novo sem maioria absoluta, e passa agora a ter 120 deputados, menos três do que tinha.

A eleição de domingo complica ainda mais as contas

Em sentido inverso, a direita ganha terreno com o PP que ficou com 88 assentos parlamentares (conquista mais 21 lugares), o partido de extrema-direita, o Vox, que passa a 52 (mais 28 do que em abril) e torna-se na terceira força política no Congresso. Já a Unidas Podemos ficou com 26 deputados (menos sete). A participação foi de 69,87%, quase menos dois pontos percentuais do que em abril (71,76%).

A eleição que deveria facilitar as contas de governo em Espanha acaba por as tornar mais complicadas. Mais uma vez nem esquerda (156 deputados, contando com aliados regionais do Podemos e Más País) nem direita (152 deputados, junto com a Navarra Soma) têm a maioria, com Sánchez a ficar dependente de abstenções para poder ser investido primeiro-ministro. A maioria absoluta são 176.

Na reação aos resultados, o líder socialista ignorou a perda de deputados, optando por lançar uma apelo a todos os partidos, exceto os que "semeiam um discurso de ódio" para que mostrem "generosidade e responsabilidade" e ajudem a desbloquear a formação do governo.

"A democracia convocou-nos hoje às urnas e a partir de amanhã a desbloquear a situação politica", disse desde a sede do PSOE. "Sim ou sim, vamos conseguir um governo progressista e desbloquear a situação política do país", acrescentou. O socialista aposta numa eventual abstenção do PP, à semelhança do que o PSOE fez com Mariano Rajoy após as eleições de 2016 (necessárias após a falta de acordo das de dezembro de 2015). A diferença é que este tinha reforçado a sua posição nas urnas.

Abascal é o grande vencedor das eleições. Vox torna-se na terceira força política de Espanha

O líder da aliança Unidas Podemos, Pablo Iglesias, apesar de ter perdido sete deputados, insistiu na ideia de uma coligação, que os socialistas rejeitaram após as eleições de 28 de abril.

Já o líder do Partido Popular, Pablo Casado, lembrou que Sánchez perdeu "o seu referendo", isto é, a aposta na repetição eleitoral à espera de melhorar o seu resultado - como aconteceu com Mariano Rajoy nas eleições de 2016. Apesar de dizer que os interesses e os programas dos partidos são incompatíveis, Casado disse que ficaria à espera de ver o que o líder socialista vai fazer antes de agir com "responsabilidade" e "alternativa".

O grande vencedor da noite foi Santiago Abascal, do Vox, que viu o seu partido mais do que duplicar o número de deputados. "Há 11 meses não tínhamos nenhuma representação nos parlamentos regionais, parlamentos europeus ou no Congresso. Hoje somos a terceira força política de Espanha e somos o partido que mais subiu em votos e em deputados", congratulou-se Abascal. Os apoiantes gritavam "presidente", ao que ele respondeu "ainda não".

Partidos indepentistas no Congresso

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